A POSTA QUE É MAU TERMOS MEDO DOS BONS

De cada vez que vejo imagens relativas ao abuso de autoridade por parte de um corpo policial obrigo-me a refrear a ânsia por segurança que, sobretudo em tempos mais agitados como os que se avizinham, tendemos a privilegiar em detrimento do bom senso que nos alerta para a brutalidade e a privação de direitos, liberdades e garantias que o excesso de preocupação com a segurança oferece de bandeja aos poderes a quem dê jeito eliminar em absoluto qualquer tipo de contestação.

 

Agora vêm de Espanha, numa santa ocasião, os momentos neandertal protagonizados por homens cegos pela força que lhes é confiada sob o pressuposto de saberem ponderar o respectivo uso. E não usam, abusam, tal como as imagens, que a tecnologia e a liberdade restante permitem divulgar, confirmam.

É uma ameaça séria, esta do abuso da força por parte de um Estado que é quem solta nas ruas estes fulanos a quem confiamos a nossa segurança e por isso acaba por ser directamente responsável pelo comportamento de indivíduos armados que queremos, no mínimo, inteligentes o bastante para distinguirem um transeunte inofensivo de um potencial agressor.

Só não entende a dimensão do problema quem não levou bastonadas apenas por escolher as ruas erradas a percorrer. A revolta é imensa e maior ainda deverá ser a preocupação de todos perante estes episódios que se multiplicam, resguardados perante uma imaginária licença para abusar concedida pelo medo acéfalo da maioria dos cidadãos.

 

Em causa estão duas opções: ceder ao medo de bandidos, de terroristas, de distúrbios, de tudo quanto possa constituir uma ameaça à segurança e exigir mais (e mais violenta) polícia nas ruas até essa polícia ter força demais (o embrião de um Estado policial com fachada democrática) ou, em alternativa, não deixar impunes estes desvios comportamentais por parte dos agentes da autoridade e escolher o caminho das melhores polícias (tamanho não é documento) devidamente equipadas e com formação rigorosa mas igualmente fiscalizadas na sua actuação.

Deveria ser uma decisão fácil, mas aparentemente não é e os políticos, tão receosos da perda de controlo das multidões como da do apoio das classes mais abastadas que pressionam no sentido de salvaguardarem a sua segurança pessoal, nunca hesitam em colocar-se do lado de polícias prevaricadores não só por estes serem os seus instrumentos mais eficazes de repressão a movimentos contestatários mas porque censurar actuações indevidas acarreta um custo político que nunca estão dispostos a pagar.

 

Sempre defendi a existência de corpos policiais de elite, bem pagos, bem equipados, capazes de ombrearem sem medos com o que de pior a sociedade produz.

Porém, da mesma forma defendo, ainda com mais ênfase, o cuidado no que concerne à legislação que proteja os cidadãos da perda de algo sem o qual todos os excessos acabam permitidos e todos os medos acabam transferidos para um mal muito maior: a liberdade de expressão e de circulação que parecem cada vez mais incomodar os poderes que elegemos (também) para nos garantirem a preservação desses direitos.

 

Quando as polícias perdem o controlo ao ponto de se tornarem num papão para cidadãos cumpridores da lei, como as imagens divulgadas documentam com frequência e disseminação perturbadoras, só os imbecis conseguem ignorar o sinal de alarme que essas situações representam e a impunidade subsequente que se camufla por detrás de inquéritos feitos por juízes em causa própria até se tornar num monstro cujos abusos ninguém saberá depois como conter.

publicado por shark às 19:06 | linque da posta | sou todo ouvidos