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Foto: sharkinho

A mudança só assusta quando a esperança não escuta as promessas da renovação. O desenlace de qualquer revolução. Para melhor, ou não aconteceria.
Na memória deste dia finco as garras da fezada nas costas de uma imagem envelhecida do futuro que há muito antecipei. Realista, afinal, o pessimista que descortinei no vidente de pacotilha.

Realistas os outros também, descarados na assumpção das suas próprias conclusões a propósito dos raciocínios comuns. Assumidos nas certezas partilhadas em surdina nos bastidores individuais da sua convicção. E nas exibições mal disfarçadas de um interesse moribundo que se agita no fundo de um poço de contradições.
Afogam-se as mágoas num tempo de tréguas pela verdade à espreita em múltiplas revelações. Como um edifício rachado do chão ao telhado pelo sismo que lhe semeou metástases de derrocada na solidez das fundações.

Tempo de reconstrução da pirâmide invertida pelo sentido da vida que redefine as prioridades ao sabor das correntes e das marés. Meter as mãos pelos pés e estranhar a morte por afogamento das palavras que o tempo não tarda a cobrir com uma vaga de pontos de interrogação. A sede de afirmação, exclamada sobre os alicerces de uma pertença reclamada a quem há muito abdicou do espaço devoluto da sua emoção inquilina. Acção de despejo traçada, por simples preguiça adiada para algum tempo depois.

Tanta casa ao dispor. E nas janelas em redor os olhos atentos de quem tira as medidas à vizinhança potencial. À espreita da ocasião ideal para meter conversa, diálogo de circunstância para cimentar as melhores relações. A mudança para melhor, observada por detrás do estore, saboreada por antecipação.

O velho cliché das recordações arrumadas no fundo da gaveta ou naquela passagem secreta onde se escondem os fantasmas do passado que se enterrou. Uma guia de remessa, segue a despacho, carimbada à pressa com o selo branco, lacrada a vermelho proibido para salvaguardar as recaídas nas espreitadelas distraídas que se deitam apenas aos ângulos melhores, os cor-de-rosa.

E finda esta prosa já houve algo que mudou. Na questão da perspectiva.
publicado por shark às 18:14 | linque da posta | sou todo ouvidos