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Foi o aparecimento do Omo que levou as donas de casa a trocarem a velha barra de sabão pelo detergente em pó. Não sou eu quem o afirma, podem confirmar aqui.
Já por diversas vezes demonstrei que não sou fundamentalista, sobretudo em questões acerca das quais não possuo conhecimentos que permitam armar-me ao pingarelho.
Contudo, numa fase da minha vida experimentei o contacto com o mundo alvo dos produtos de limpeza e tive, como todos, que fazer as minhas opções.

Azul e branco era a combinação de cores ideal quando se falava de limpeza na década de 50, quando o Omo começou a surgir nas prateleiras das mercearias. Servia para tudo (até para lavar o cabelo), o sabão universal que só no Clarim (de tom amarelo torrado) encontrava um concorrente menor.
As donas de casa (na altura era só o que havia, pois só na década seguinte no mundo inteiro e quase duas décadas depois em Portugal começaram a surgir os cavalheiros de avental – não é um trocadilho maçon) só conheciam o sabão do costume e era nesse que depositavam as suas esperanças para o fim das nódoas difíceis de baton alheio no colarinho das camisas do seu amo e senhor.

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Foto: sharkinho

Eram mulheres de hábitos, tradicionalistas, e vergavam-se sobre o tanque de cimento com determinação, firmemente agarradas ao sabão para satisfazerem as suas necessidades primárias na lavagem da roupa suja.
Mas um dia o progresso chegou ao país mais retrógrado do hemisfério ocidental (tirando os parceiros latinos do lado de cá e os eslavos do lado de lá da cortina de ferro – que o Omo nunca conseguiu transpor).
Prometia lavar mais branco e cheirava a modernidade no quotidiano bafiento das domésticas-modelo que os fifties cultivavam na terra do tio sam como na do pai António de oliveira.
Além disso, os novos pós de perlimpimpim respeitavam os tecidos delicados (algo que o neaderthal tradicional em barra não distinguia) e assim o sabor da novidade, como a margarina Vaqueiro a que o Último Tango em Paris deu razão, tornava tudo mais apetitoso.

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Foto: sharkinho


Aos poucos, os machos portugueses (que pouca atenção prestavam aos objectos decorativos do lar, bem como às funções por estes executadas) deixaram-se ultrapassar pelos acontecimentos. Nem iam às compras nesses dias, pelo que não viam o padeiro nem o merceeiro que lhes aviavam as patroas com os sinais dos novos hábitos de consumo lusitano em pacotes. O Omo, como o Toyota, vinha para ficar e os estendais de Portugal nunca mais voltariam a ser os mesmos.

De resto, o Omo serviu como batedor das diversas marcas que do outro lado do Atlântico aguardavam um enfarte do miocárdio ou um trambolhão da cadeira para penetrarem sem dó o mercado nacional. Americanices começaram a apoderar-se do dia-a-dia das mulheres portuguesas e a concorrência não tardou a fazer-se sentir e até deu origem a uma novela radiofónica.

- I go with the Tide! – afirmavam algumas consumidoras atentas ao branco que mais branco não havia e deixavam-se planar nas fantasias que lhes sugeriam as vozes graves e quentes dos actores que davam som aos enredos da telefonia. Depois surgiu o Simplesmente Maria, mas aí já o sabão definhava na memória colectiva das lavadeiras de Portugal.

Mas o que transformou em definitivo os hábitos de consumo das donas de casa pela limpeza moderna (saturadas de esfregar sem sucesso a roupa velha e debotada), marcando o fim do reinado do sabão, acabou por ser o Presto que, alguns anos mais tarde, deixou toda a gente com vontade de experimentar uma lavagem à altura.
E de conhecer um verdadeiro glutão…

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publicado por shark às 12:09 | linque da posta | sou todo ouvidos