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Proibido na Indonésia

A Playboy foi vendida pela primeira vez no país onde um beijo com duração superior a cinco minutos dá pena de prisão. Nem um seio para amostra, o que deixou claramente frustrados os leitores da edição indonésia da mais famosa revista “para homens” do mundo inteiro. Mas mesmo assim uma heresia para o sector radical do islamismo daquela nação pouco reconhecida pela tolerância.
Apesar de os impostos sobre o tabaco serem um sustentáculo importante do orçamento do Ministério da Saúde português, vai ser proibido fumar em quase todos os espaços com telhado e paredes. E para reforçar a ideia do punho de ferro com que o assunto passará a ser tratado no nosso país, os maços de tabaco vão incluir sugestivas fotos de cadáveres e/ou órgãos internos danificados pelo consumo da nicotina.

Estes dois assuntos não têm nada a ver um com o outro? Pois, reconheço que teria que existir uma associação de ideias muito forçada…
De resto, enquanto a Indonésia deu um passo tímido na aproximação a uma parte da liberdade de escolha e de expressão ocidental, Portugal avança em passo de corrida para a colagem ao exemplo pouco louvável dos puritanos que permitem a venda de pistolas-metralhadoras em supermercados mas rejeitam a ameaça temível dos cigarros-bazucas nas esplanadas dos cafés.

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Proibido na Indonésia

O absurdo faz a ligação dos dois temas que me inspiram nesta posta. Assumo-me advogado do diabo em ambas as questões, pois reconheço tão válido o direito indonésio à nudez de um beijo apaixonado como o meu direito a partilhar um espaço arejado com pessoas mais espertas do que eu (as que não fumam).
Vou ser claro: estamos a falar de fundamentalistas. Os que fundamentam o seu receio às fotos de mulheres nuas por temerem que a tesão seja nociva para a fé e os que justificam a vocação proibicionista com base em números (as mortes de “fumadores passivos”) difíceis de comprovar (o que é um “fumador passivo” nas estatísticas? Uma vítima de cancro de pulmão que tinha comprovadas más companhias – fumadores assassinos?). E ainda nos acenam com o fantasma da impotência, nos recados impressos nas embalagens “ilegais” (o que seria péssimo para o negócio da Playboy nacional).

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Proibido na Indonésia

Detesto que a minha liberdade colida com a das outras pessoas. Mas não entendo que uma elite da sociedade (os que não fumam) tenha o direito de frequentar espaços que agora me são interditados (por pertencer à casta inferior, os que fumam), caso não queira aceitar a penosa privação de um cigarrinho imediatamente após a refeição.
Faz todo o sentido que existam condições para que quem não fuma possa evitar essas companhias indesejáveis. Mas também soa disparatado que quem fuma não possa frequentar uma discoteca sem passar o tempo a ir à rua para evitar uma sova dos seguranças por acender uma beata clandestina (que pode custar um dinheirão em multas aos respectivos patrões).
Ok, na Indonésia nem poderia beijá-la…

Mas porra, não poder fumar no local de trabalho???
Tal como acontece hoje com as drogas leves, um papão temível nas mentes esclarecidas de quem atribui às coisas o peso que a lei lhes dá, o tabaco será amanhã um símbolo de marginalidade, um rótulo pejorativo para qualquer cidadão. Não há volta a dar. Se é proibido, facilmente censurável e até tem fotografias de gente morta, um maço de tabaco será no futuro tão comprometedor para a imagem de alguém como um flagra no meio de uma ganza.

E este é só o início do processo que acelerará a conversão portuguesa aos novos fundamentalismos não religiosos que brotam como cogumelos na alucinação ocidental, a bushalização que nos transformará nos imbecis que sonharão embevecidos com o prazer proibido de uma baforada de SG à sobremesa.
Entretanto, na Indonésia, os apreciadores deixam de ter que sonhar às escondidas com um futuro mais risonho e liberal, repleto de maminhas destapadas.

Não me safo, marginal viciado, em nenhum dos países que citei...
publicado por shark às 12:06 | linque da posta | sou todo ouvidos