A POSTA NUM HOMEM QUE EU VI

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Devagar, como a chuva que escorre pela vidraça como uma ameaça latente que nos espera. O perigo lá fora, a água que molha a alma com gotas de vida sentida, olhos semicerrados, os lábios molhados pelos beijos do céu.
Nas calmas, a degustar o sabor ausente da chuvada cadente iluminada pela teimosia do sol. Arco-íris miniatura, pintado no reflexo de um rosto que se ama, num sorriso que se deu.

Sem medo de sentir, a chuva na cara e no corpo, cabelo encharcado de promessas da bonança que qualquer tempestade anuncia. Lá fora, a ameaça velada de uma semana engripada que só atormenta conformados de pele tão seca como o respectivo coração.
A porta que se transpõe para outra dimensão, entreaberta pela vontade de ir um tudo nada mais além. Rebeldia condicionada pelo guarda-chuva da contenção. Parece mal, apanhar uma molha. Coisa de maluquinho.
E ele assume sozinho o risco da euforia, abraça a alegria e espalha o pólen do amor pelas flores em seu redor.

Ele parece um homem feliz, assim desenhado na rua, rosto virado para as nuvens num desafio. Impermeável, determinado, indomável, apaixonado. Pela vida também e pelos privilégios que ela tem, a felicidade a chuviscar e a emoção a transbordar pelos poros alagados como numa tarde de amor no pino do Verão.
Parece um homem em paz, sossegado. Parece saber-se amado e dá ares de amar alguém. A vida também, em toda a sua grandeza, manifestada na beleza que atribui, mesmo aos mais insignificantes pormenores. Coisas simples, aliás, da existência que se faz pela soma das sensações. O preço das ilusões e a sua contrapartida, numa suave readaptação das utopias que se materializam, logo de seguida, em relações especiais. E duradouras.

Um ciclo que se completa com a consciência que desperta para uma atitude mais (eco)lógica. Reciclagem cuidada de sentimentos e de atenção, a prestada ao essencial em detrimento do supérfluo. Separadas as águas de um único rio com o leito vazio porque são outros os caminhos, alternativos, percorridos na fúria incontrolável da enxurrada. Sedimento de emoção excessiva, depositado no final de uma estrada com duas faixas que começa precisamente no ponto onde o sentido se inverteu. Sem princípio nem fim, subida e descida, o ponto de partida na meta que se alcançou.
Uma vitória, afinal, celebrada de braços abertos à chuva que tombou.

Aquele homem lá fora, ensopado, é um príncipe encantado pelas fadas-madrinhas que lhe tocaram a varinha para lhe oferecer um condão. Cada fada que deu, presentes passados, momentos preservados pela magia que recebeu. Cada instante no coração, gravado, cuidadosamente arquivado para nunca se poder banalizar. Especial.

A serenidade que ele transpira é uma fonte de inspiração, salpica-me o repuxo colorido da água que o baptiza em nome do deus maior que cada pessoa tem.

Eu chamo-lhe Amor. E Amizade também.
publicado por shark às 10:46 | linque da posta | sou todo ouvidos