TALVEZ SAIBAS

Talvez saibas quando ficou amargo esse teu coração que pintas açucarado com palavras feitas pincel que te cobrem de cores quentes o fel que destilas sempre que surge a ocasião, consegues forjar a emoção adocicada e simulas-te apaixonada para poderes parecer como as outras que não entendes na sua capacidade de amar.

 

Talvez saibas quando foi aberta, sem sarar, essa ferida que dói em ti e nos outros que se deixam enganar por esse teu coração a sangrar um amor acre rebuçado que é um presente envenenado pela desistência que não admites e te deixa que na consciência fabriques justificações insanas, sabes que há muito não amas e por vezes até cais em ti e percebes que vem daí a explicação para a imparável sucessão de histórias sem final feliz.

 

Talvez saibas porque te contradiz na prática a deambulação dessa paixão errática que vais caricaturando na pele dos que te vão amando até se confrontarem com a ausência de explicações para o vazio das emoções maquilhadas, para o frio das palavras cuspidas sem amor e sem fé.

Depois dizes até que acreditas na realidade de um amor para a eternidade, enquanto soltas aos poucos as amarras de todos os que caem nas garras desse sorriso encantador de serpente ardilosa, dessa aparência amorosa que se transfigura em mais uma triste revelação do óbito desse teu coração azedo, desse teu orgulho ferido por cada derrota que, na tua mente contorcionista, a batota transforma em culpa alheia enquanto a vida se escoa como areia na ampulheta que vais virando no início de cada relação nascida para abortar.

 

Talvez saibas porque finges amar quando sabes que a meio da luta desertas, fracos os pretextos que inventas para mirrares, dura como pedra, seca como a terra no final de cada Verão.

 

Talvez saibas (tens a certeza) que é por essa terra ressequida que ao longo do resto da vida percorrerás o caminho mais curto para a tua inexorável solidão.

publicado por shark às 21:22 | linque da posta | sou todo ouvidos