A POSTA INSECTÍVORA

Aconteceu-me por três vezes nos últimos dias, em grandes superfícies comerciais. Cruzei-me com pessoas que conheço e me conhecem também. Mal me puseram a vista em cima, apontaram os focinhos pró chão e fizeram de conta que não me viram. Só para evitarem um simples cumprimento, mesmo que à distância e sem alguém abrandar a passada consumista própria dos retardatários (os melhores velocistas de qualquer chopingue nos dois dias anteriores à véspera de Natal).

Quase me convenci de que vestira um casaco verde alface, ou que cheirava mal dos sovacos ou dos pés. Sentia-me um repelente de insectos com pernas, embora fosse eu o enojado pelo desplante daquelas pessoas que, cedo ou tarde, acabarão inevitavelmente por me cumprimentar algures.

Faz-me impressão, esta alergia aos outros que nos apressa para dentro do ascensor apenas para evitar a viagem de segundos na companhia do vizinho que meteu a chave à porta para entrar no edifício, mesmo atrás de nós.
Causa-me desconforto, esta esquizofrenia que a cidade incute nas nossas condutas e que nos afasta dos outros como se cada pessoa fosse uma espécie de mosquito nocivo, capaz de com uma simples picada de palavras infectar-nos com alguma doença terminal.

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-Olá, beleza! Posso dar-te uma picadinha de amizade?
publicado por shark às 11:51 | linque da posta | sou todo ouvidos