A POSTA NO FUNGÁGÁ DA BICHARADA

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(fotos de bovinos/as indisponíveis por ruptura de stock)

Os bovinos, como a testa indica, são animais que adoram marrar. Mesmo quando tal ímpeto se revela desastroso, como popularizou a frase que inclui o comboio de Chelas. Podem manter-se em sossego no pasto e ninguém dá nada por eles. Mas a qualquer momento soltam bramidos de redondel (como se um par de bandarilhas lhes tivesse sido cravado no dorso) e ala que aí vai bife a galope pela planície, mesmo sem pretexto que o justifique.

Por isso mesmo, ninguém pode fiar-se no seu ar de ruminante pachola e qualquer campino em início de carreira sabe de antemão que deve evitar a cor vermelha que tanto lhes assarapanta os cornos.

Apesar do horror que tal espectáculo inspira aos amantes dos animais, os bois adoram touradas. Isto porque é na arena que muitas vezes conhecem a chocalheira da sua vida, a fêmea que nunca ousariam sonhar e lhes aterra na vista como um euroboizões caído do céu. Sentem-se uns príncipes, cada vez que a sua memória fotográfica lhes reporta a imagem da bezerra que algures os beijou e assim os transformou (na sua mioleira desengonçada) em bichos dignos da melhor faena. E assim se esforçam por impressionar as tetas da sua eleição, arriscando umas picadelas na picanha, ao enfiarem o focinho a eito nas pegas que, de caras, não são as suas.

Acabam pegados de cernelha, coitados, agitando as hastes (de que muito se orgulham, pois a BSE banalizou as loucuras das cornúpetas) como baratas tontas. São, afinal, vítimas de uma impulsividade ancestral que caracteriza a espécie e os arrasta invariavelmente para corridas de merda em praças de segunda categoria.
Nem assim despertam para o final programado num rodízio qualquer. Acreditam-se paladinos e revolvem os intestinos em busca da marrada mais fina, à antiga portuguesa, confundem-se com os cavaleiros que os lidam e roçam os cascos no pó armados em matadores.

O perigo para estes animais de porte tão majestoso é embicarem para o capote sem lhe poderem depois sacudir a água que metem pelo caminho e lhes ensopa o pelo por tabela.

É que o signo de um touro é acabar no prato de alguém. E quanto mais bravo se volteia, mais depressa lhe trincham uma costoleta. Ou um naco do acém…

(Nota do autor: se depararem com alguém a ruminar de forma prolongada este texto em busca de algo mais que não uma conversa acerca de quadrúpedes propriamente ditos, digam a esse alguém que pare de olhar para o palácio, sff)
publicado por shark às 19:53 | linque da posta | sou todo ouvidos