DIAS DE BOLA E A TELEVISÃO DIGITAL DO PLANETA TERRA

Só hoje percebi que com a entrada em cena da Televisão Digital Terrestre (a gente não percebe nada destas tretas, ok, mas que não é a Televisão Digital Marciana conseguíamos lá chegar...) vão desaparecer dos telhados as tradicionais antenas que fazem parte dos meus céus desde que tenho a feliz oportunidade de os ter por cima da minha cabeça.

 

Claro que este pequeno choque tecnológico apenas corresponde à instintiva reacção à mudança, algo que tem castrado imenso a Humanidade por a mergulhar numa dualidade entre a sede de progresso e o medo das respectivas consequências, mas a sua corrente é feita de muitos amperes de informação contida no sítio onde arquivamos as referências. Coisas tão simples como a memória dos domingos de manhã em que os vizinhos ansiosos pela transmissão de um Sporting-Benfica obrigavam o Zé Fusíveis a abandonar o conforto da cama que não largava antes do meio-dia para arrastar a sua camisola interior à Vasco Santana para o telhado do edifício, apenas porque era ele o único a saber como se orientava a coisa para desaparecer a chuva na imagem do derby que reunia multidões nas casas dos felizardos que já tinham uma Salora a preto e branco no lugar mais destacado das salas que ainda não tinham nada de salões e uma lareira era coisa apenas de mansões daquelas que só víamos nos filmes ou ao longo do caminho no passeio saloio que percorria a marginal até entrar pela Serra de Sintra rumo a Mafra e depois a Belas ver as belas que belas não vi mas tenho muitas saudades dos fofos que lá comi.

E é no meio destas flashadas de tempos tão antigos que um gajo até estranha não ver no lugar das unhas umas garras de tiranossauro que a pessoa começa a alargar o horizonte das preocupações menos comezinhas e egoístas do que a de saber se o seu televisor está equipado para funcionar quando finalmente chegar a TDT que evoca um insecticida popular que entretanto se tornou proscrito e encontra de imediato quem vista a pele indispensável de quem serve de exemplo para o alívio inerente ao eu até estou mal mas fulano está bem pior. É fatal como o destino.

 

O advento da TDT, e chamo a vossa atenção para o delicioso pormenor de a escolha da palavra "advento" não ser obra do acaso mas antes um toque pessoal do autor para suscitar a óbvia associação de ideias entre o vento e as antenas que (ainda) balouçam como ramos de árvores nos telhados, dizia eu que esse advendaval, e aqui invento uma palavra nova, notem bem, da televisão terráquea vai transformar todos os fabulosos técnicos de antenas por esse mundo fora em invólucros de sabedoria obsoleta e absolutamente desnecessária.

Deve ser flixado, um gajo ter passado a vida a especializar-se numa cena que de repente deixou de fazer falta ao pessoal...

 

Mas não ficam por aqui os danos irreversíveis que este progresso a cores e de alta definição acarreta.

Caso não tenham ficado condoídos/as com o profundo drama pessoal de todo um grupo desta nossa sociedade sem lugar para monos, avanço com a cartada seguinte do meu raciocínio desvairado de cidadão atormentado pelas marcas da passagem do tempo na sua dimensão corredora, apelando de forma descarada ao generalizado amor aos animais que decerto irá conferir toda uma carga (um choque emocionológico?) a esta posta irrelevante como devem ser as de um fim-de-semana.

Poizé, e os pombos? Quem de entre vós teve o reflexo de lembrar a tragédia que se irá abater sobre nós quando as pobres avezinhas chegarem ao cimo dos edifícios e apenas dispuserem de meia dúzia de chaminés que não pode servir a todos de poleiro e, coitadinhos, começarem a escorregar com as patinhas nas telhas em plano inclinado e acabarem por tombar nas ruas, diante dos nossos olhares horrorizados e assim?

 

Claro, entretanto já algum/a desmancha-prazeres se lembrou do facto de os pássaros terem asas...

Mas a intensidade do problema acaba por ficar latente e posso sempre aproveitar esse final feliz para o novelo acima, com passarinhos e passarinhas a voarem alegremente pelo céu urbano livre de antenas e a pousarem, tão lindinhos, sobre os parapeitos das janelas e tal, para recordar que temos sempre revelado capacidade para darmos a volta às dificuldades e não tarda tocarão à nossa campainha os Zés Fusíveis modernos, antigos técnicos de antenas que nos levavam um dinheirão para chegarem ao telhado, abancarem a fumar um cigarro com uma vista magnífica, mandarem uma biqueirada na antena para resolver o problema de mau contacto nos fios e agora nos levarão ainda mais dinheirão para fingirem que foi a sua extrema perícia e inteligência superior quem acabou com a voz fanhosa do Rodrigues dos Santos no telejornal a falar-nos da história do técnico que caiu do telhado em Massamá quando tentava salvar uma cegonha entalada entre antenas e não um computador xpto instalado numa sala onde outros antigos técnicos de antenas convertidos à nova causa pensam em melhoramentos nos habitáculos para os seus pombos de criação na casa de campo que o seu novo emprego com salário chorudo lhes permitiu adquirir.

 

E agora é a malta comprar um conversor ou tradutor ou lá o que for e entretanto rogar pragas por nestes dias em que transmitem os Sporting-Benfica em canal fechado não ser razoável bater à porta do vizinho que subscreve a SporTV...

publicado por shark às 14:58 | linque da posta | sou todo ouvidos