A POSTA NAS REVOLUÇÕES DEPOIS LOGO SE VÊ

Depois do Egipto nada parece querer ficar como dantes naquela zona do planeta.

Os povos saíram à rua e os poderes que os deveriam servir reprimem o seu grito de liberdade, teimando em lidar com manifestações da vontade popular como desordens que legitimam o (ab)uso da força, num tique alérgico à democracia que se prova, pela capacidade de mobilização mesmo sob o olhar espião de regimes totalitários, a única opção viável no mundo actual.

 

Esquerda e Direita não são termos que surjam associados aos movimentos espontâneos de reacção aos poderes instalados no que tendemos a generalizar como mundo árabe mas engloba nações como o Irão.

Se existe um traço comum será a predominância de uma religião que, em face do que se tem passado, também não parece funcionar como pólo aglutinador destas rebeliões em larga escala que surgem do nada como massas heterogéneas de pessoas saturadas de governações corruptas e prepotentes.

É a Democracia pura e dura que se espelha nos estandartes populares, muito acima de qualquer outra causa passível de ser conotada com ideologias nesta fase embrionária de verdadeiras revoluções como a que aconteceu na terra dos faraós.

 

A lição aprendida pelos restantes tiranos depois da queda dos seus homólogos egípcio e tunisino revela-se no uso da repressão sobre o que entendem (ou querem acreditar) como bandos de insurrectos alheios à grande multidão que apoia apenas no plano do seu imaginário estas elites que afinal vivem em planetas distintos dos seus povos ao ponto de perderem o contacto com a realidade miserável que lhes proporcionam.

E é aqui que cada vez mais se cruzam perigosamente os caminhos dos regimes agora sob pressão e as nossas democracias ocidentais que começam a revelar sintomas análogos em áreas tão distintas como o alheamento à realidade acima referido, traduzido na criação de bolsas de pobreza no seio das cidades que acabam por ser as versões em betão dos amontoados de barracas que o passado recente nos exibiu e o poder tentou esconder nos chamados bairros sociais mas explode aos poucos nos subúrbios europeus, mas também se fazem notar na apetência pelo controlo da Comunicação Social e na abafada mas evidente tentação de reduzir a margem de manobra de espaços de liberdade como a internet.

A repressão policial, embora para já numa escala menos agressiva, será outro dos apelos dos governos ocidentais quando (e não se) as populações não suportarem mais a visível decadência das suas classes políticas e respectivas consequências no desgoverno das contas públicas e nas decisões desastrosas em matéria económica, repercutidas sob a forma de desemprego, emprego precário e progressiva degradação do funcionamento do Estado aliada à iminente falência da Segurança Social.

 

Neste contexto aziago, curiosamente, não emergem novas correntes de pensamento para substituírem ou complementarem as já existentes e a contestação surge em torno de objectivos concretos e de curto prazo mas desprovida de soluções, de alternativas reais para o poder que anseiam renovado mas dessa forma arriscam entregar ao vazio.

 

Ou ainda pior.

publicado por shark às 11:16 | linque da posta | sou todo ouvidos