A CRÓNICA DO BOM MALANDRO

O ladrão entrou na loja com o rosto descoberto perante a câmara de segurança que mostrou ao mundo o insólito do seu assalto que, de resto, é daqueles que merecem o epíteto de bem sucedido.

O lojista, outra pessoa de bem, percebe de imediato o tipo de homem que tem na sua frente, com uma arma provavelmente falsa ou, se verdadeira, certamente descarregada, e não só mantém a calma que garante um desfecho perfeito como acrescenta um discurso de alguém que compreende a motivação, o desespero, por detrás daquele bandido moderno, um cidadão normal, claramente de boa formação e novato naquelas andanças, nas suas próprias palavras preocupado apenas com o sustento dos filhos e a manutenção de uma vida normal.

 

É impressionante o diálogo entre os dois homens que o destino cruzou de uma forma tão potencialmente dramática, chegando ao ponto de o ladrão prometer com a convicção de homem honesto a devolução do montante roubado que afinal o lojista lhe emprestou, tamanha a sua preocupação em certificar-se que o outro não seria preso pelo seu acto ilegal.

Este mundo paradoxal vai servindo de bandeja os exemplos do quanto muitos papéis se invertem, ao ponto de no caso que motiva esta posta ser fácil acreditar que o ladrão é afinal a vítima e o lojista assume o lugar de quem acode em seu auxílio, tudo isto no contexto de um assalto à mão armada que pode sempre correr muito mal e por isso garante penas pesadas a quem opte por essa saída de emergência para uma crise financeira que está a fazer desmoronar a vida de milhões de pessoas.

 

Amanhã, muitos de nós podem ver-se na pele daquele homem de bem que envereda, cracked under pressure, pelo mal que, em face de todo o admirável episódio, entendemos necessário ainda que rejeitemos por princípio tal opção.

Amanhã posso ser eu o ladrão.

 

E se tal vier a acontecer, quero ser como aquele.

publicado por shark às 12:19 | linque da posta | sou todo ouvidos