EM (P)ARTE INCERTA

O músico que verte pelos dedos emoções para o teclado de um piano que chora uma lágrima sonora e a deixa fugir pela janela, disfarçada de som.

O pintor abandonado que olha para uma tela e projecta a imagem de um sentimento feliz, palhaço pobre, o cinzento da sua alma que chove a tinta no papel, filtrado para fluir pelo pincel luminoso e colorido no tom.

O escultor que decidiu renegar o amor, desiludido, e investe o seu carinho na forma grosseira de uma pedra moldando-a como o barro de um seu acto falhado, algo parecido com um jarro onde escondeu as memórias que quase sem querer imortaliza agora no rosto de uma deusa talhada à imagem da sua amada que não consegue esquecer.

O escritor que pretende contar uma história sua como se nada tivesse a ver, os sons, as sensações e as imagens que precisa escrever na esperança de que as suas palavras consigam reproduzir tudo aquilo que acaba de sentir, imiscuindo-se de forma discreta numa trama que sente como ficção mas lhe brota do coração como uma lágrima descrita, como uma paixão proscrita, clandestina, imensa, que escreve de uma forma intensa em palavras que entram pelos olhos de quem as lê como um vermelho ardente, rubi, lapidado em versos tão reais que se percebem tridimensionais quando processados pela imaginação de quem abre o coração às emoções contadas que se deixam apalpar pela profundidade de um olhar atento que absorve naquele momento tudo quanto o autor sentiu e num assomo de inspiração decidiu deixar fugir por entre as palavras pintadas nas folhas brancas que se fazem ouvir quando sopradas pelo vento inesperado numa madrugada estival com um céu fascinante pintado pelo sol nascente e a pele arrepiada pelo frio de uma pedra trabalhada na mente pelas mãos de outro artista para servir de lápide da cor do giz no túmulo do herói imaginário a quem decide não oferecer um final feliz.

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publicado por shark às 19:32 | linque da posta | sou todo ouvidos