TÁCTICA DO QUADRADO FOR DUMMIES

Então lá estavam o Mestre de Aviz e D.Nuno Álvares Pereira na sua, em pleno ano de 1385, quando o Rei de Castela desatinou e com a fúria da birra toca de reunir um exército e entrar por aqui adentro e é tudo nosso e o camandro.

Os invasores, montes deles e por isso todos armados ao pingarelho, lá foram avançando e a ideia era darem a Lisboa o mesmo destino que dariam a Olivença uns anitos mais tarde. A chatice para eles é que o D.Nuno tinha uma santa e condestável carola, para além de os ter no sítio como a maioria dos portugas daquele tempo, e vai de nem querer esperar na capital pela chegada dos malandros: vamos mas é pregar-lhes uma valente aljuderrota!

 

A malta até alinhou logo, na boa, bute lá e coiso que só temos que aviar (aqui é quando a padeira topa a janela de oportunidade, manganona danada pró negócio) cinco ou seis cada um, sempre damos uma voltinha e depois de lá estarmos logo se vê (deixando tudo para a última da hora, como a maioria dos portugas de agora), mas naquela de que ia ser o cabo dos trabalhos para darem a volta à situação (até porque o Cristiano Ronaldo não jogava nesse tempo).

 

O azar dos nuestros amigos da onça é que para além de D. Nuno ser um grande amigão do Mestre João que acabou por ser o primeiro quando lhe ofereceram umas coroas (para ele e para a patroa) para tomar conta do Reino, tinha uma ligação próxima com o Divino e, pelo menos de acordo com os manuais escolares do tempo da velha senhora, fez umas rezas e meteu uma cunha (começámos de pequeninos com essa mania) e deve-lhe ter surgido uma aparição (ali na zona parece que é costume) e podia ser um hexágono ou um triângulo isósceles mas acabou por ser um quadrado.

E ele não vai de modas, toca de engendrar uma maneira de arrumar a malta no terreno ainda mais eficaz que as do Zé Mourinho (não desfazendo, que também era homem para fazer peito aos espanhóis nem que fossem do Barcelona):

 

 

 

 

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>                                              <

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AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

 

 

Oo    O  oo     O ooO   OOO o O

 

 

Legenda:

 

V - Retaguarda comandada pelo Mestre de Aviz

£ - Cavaleiros ingleses que vieram dar uma mãozinha

> - Ala das Madressilvas

< - Ala dos Namorados

A - Linha da frente, a carne para canhão comandada por D. Nuno

O - Covas dos lobos, uns buracos cobertos por folhas onde alguns cavaleiros inimigos tropeçaram (vivaços portugas: a pregarem partidas e endrominarem a estranja desde 1385)

M - Os maus da fita

 

 

 

A ideia era a primeira linha enfrentar o embate inicial e ir recuando como quem não quer a coisa, ah e tal, credo, tão fortes e maus que são estes numerosos coños, enquanto a rapaziada das alas ficava de ladecos, à coca do momento certo para entrarem em cena. À esquerda (a vossa direita) e não havendo à mão militantes socialistas, comunas ou bloquistas ficou a Ala dos Namorados (séculos mais tarde até gravaram uns CD's), à direita (a vossa esquerda) ficou a Ala das Madressilvas (que não eram nenhumas Madre Teresas), mais para trás e com o ar de quem até estava numa de façam de conta que nem estamos cá ficou o contingente de reserva para o golpe de misericórdia nos incautos e à frente, bem vistas as coisas, estavam os verbos de encher...

Bom, às tantas alguém viu os castelhanos ao longe: malta, os gajos vêm aí e são bués!

Pouco depois já estava tudo embrulhado à trolha e a linha da frente começou a ceder o miolo do terreno ao adversário:

 

 

VVVVVVVVVVVVVVVV£VVVVVVVV

 

>                                              <

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>                   A                         <

>               AA      A                   <

>          A M         A                <

>       A M   MM    A              <

> M   M             A         <

> M           M          A       <

AAAA MMMMM           AAAA

MMMMMMM

MMMMMMMMMM

MMMMMMMMMMMMMMMM

MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM

MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM

 

 

 

Por esta altura já os arqueiros da Ala das Madressilvas estavam a afiar não as naifas mas as setas que não tardariam a chover sobre os mânfios castelhanos, enquanto os laterais da Ala dos Namorados se preparavam para dar umas beijocas daquelas que até põem um gajo a ver estrelas.

Lá atrás, a assobiarem para o tecto, continuavam os pontas de lança à espera do seu lance de contra ataque.

Os da frente, coitados, quem vai à guerra dá e leva, lá faziam o melhor que podiam para defenderem a baliza improvisada enquanto os adversários avançavam a lamberem os beiços perante a goleada que previam (eramos tão poucos que parecíamos o Arrentela Futebol Clube já com três gajos expulsos a jogar para a Taça contra onze do Benfica).

Mas lá está: os castelhanos todos eufóricos a tentarem resolver rapidamente a partida e afinal quem lhes pregou uma foi o D. Nuno quando mandou avançar pelas faixas laterais.

A Ala dos Namorados (que até parecia um exército de Fábios Coentrões e de Hulks) caiu-lhes em cima com ganas de vou-me a eles e fico todo negro e a dos Madressilvas começou a centrar para a grande área (onde os castelhanos se viram encurralados) e só não choveram canivetes em cima dos outros porque não havia. Mas havia setas à pazada e pazadas na padaria e os desgraçados no meio, desorientados, aos encontrões uns aos outros sem saberem de onde elas lhes mordiam.

Os da linha da frente reagruparam-se na linha de trás dos inimigos e de repente eles começaram a querer ver Portugal pelas costas.

E depois avançou a linha recuada, fechou-se a caixinha e pronto, os espanhóis foram apanhados em fora de jogo:

 

 

 

 

VVVVVVVVVVVVVVVVVVV£VVVVVVVV

> -  - - M MM MMM M              <

> - WMM  MM MMMMMMMM     <

> -- MMMMMMM MM MMM  <

> - MMMMMMMMMMM M   <

> -   -W MMMMM M MMM M  <

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> --      -        MMM MM MMM M <

> -         - MM MMM MMMMMW<

> --    -  - -WMMM M  MMMMM<

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

 

 

 

Claro está que tamanho não foi documento e os castelhanos, traídos pelo excesso de confiança numa cavalaria medieval pesada que encontrou em Aljubarrota um exército de abre-latas, acabaram a bater em retirada ao longo da qual, contas por ajustar, a população rural da região de Alcobaça terá dizimado ainda mais inimigos do que os tombados ao longo do que pensavam ter sido a única batalha.

 

Depois (era uma vez) o Mestre tornou-se Rei, os castelhanos que sobravam mais alguns sobreviventes traidores da nobreza que decidiram jogar pela outra equipa meteram a viola no saco e piraram-se para o lado de lá da fronteira sem saberem muito bem o que lhes tinha acontecido e os portugas viveram felizes e independentes (quase) para sempre porque pelo meio ainda houve aquele nosso monarca tonto que em vez de água meteu nevoeiro e lá tivemos que correr com eles outra vez à bruta.

 

Mas esse, se vocês quiserem, poderá ser o tema de outra posta deste estilo lençol didático para mentes ligeiras e olhares pouco apressados.

publicado por shark às 20:35 | linque da posta | sou todo ouvidos