A POSTA QUE PRECISO RESPIRAR FUNDO E CONTAR ATÉ DEZ

Apesar de todo o apelo à racionalidade que ainda me reste, existem domínios nos quais não me julgo capaz de encaixar as coisas num plano ponderado e razoável.

De todas essas coisas que verdadeiramente me tiram do sério e já provaram tornarem-me capaz de dizer e fazer o tipo de disparates de que a pessoa se arrepende depois, os crimes contra vítimas indefesas, onde a força bruta e/ou mental do agressor é o factor determinante para lhe permitir o abuso de poder implícito (para além da desumanidade óbvia) são mesmo as piores.

No topo dessa minha lista estão, naturalmente, os canalhas capazes de escolherem crianças como alvos para a sua maldade intrínseca.

 

Seria doentia e tragicamente fastidiosa a listagem dos exemplos que se conseguem reunir, mesmo tendo em causa um período tão escasso como meia dúzia de meses, de monstros capazes de atrocidades várias aplicadas a crianças.

A qualquer um de nós é fácil encontrar alguns episódios mais mediáticos, necessariamente os mais cruéis e desumanos, do resultado da fúria ou da incapacidade destes monstros para entenderem o que está em causa quando se agride uma criatura pequena e dependente dos cuidados que os mais velhos lhe prestem para poder sobreviver.

Mais indefeso do que isso é difícil.

 

O mais recente crime a infestar as parangonas parece coisa menor, quando comparado com aqueles a que mais acima fiz alusão. Não foi despicienda essa chamada de atenção da minha parte pois existe um aspecto que me parece importante enfatizar: a crueldade cobarde e impiedosa de quem comete quaisquer crimes contra crianças.

A importância desse factor talvez permita eliminar a tradicional relativização dos crimes por comparação que tanta generosidade inspira no povo lamechas e na maioria das decisões dos tribunais, mas que deveria ser erradicada quando está em causa, no caso concreto que move esta posta, a existência de uma creche ilegal no interior da qual algum ou alguma das tais bestas que me inspiram um ódio visceral intoxicava bebés com calmantes para adultos a fim de facilitar a sua tarefa, a meu ver sagrada, de tomar conta deles em substituição dos seus pais.

 

Começo por realçar o facto de a administração de tais fármacos a crianças de colo poder causar-lhes lesões irreversíveis, o que agrava sobremaneira a culpa de quem já teria que responder pela batota nas regras de um jogo onde não existe lugar para negligência e ainda menos para a má conduta deliberada sem qualquer pretexto para servir de atenuante aos contornos canalhas da mesma.

Estes factos conhecidos, uma criança já foi identificada na condição de vítima do crime em causa, já me bastam para turvar a racionalidade que me poderia impedir, na pele de pai de uma daquelas crianças, de garantir um castigo proporcional (desproporcionado) a quem se tenha revelado capaz de tamanha ignomínia, evitando assim o crivo do afinal ninguém morreu e tal e coitadas das pessoas que lhes passou qualquer coisa má pela vista por sofrerem de uma maleita qualquer que vai safando quase impunes muitos destes monstros cuja punição ligeira acaba por servir de mau exemplo para os seus iguais, como acontece cada vez com mais frequência num país onde há algo de bizarro no critério de aplicação de penas que raramente cumpre o seu desígnio de compensação à sociedade pelos danos inflingidos por algumas das suas aberrações.

 

De uma forma ponderada, no conforto de um sofá e alheio ao acontecimento que motiva esta posta, ainda consigo atinar e ceder aos mecanismos de protecção racionais contra o incitamento à justiça exemplar, imediata, capital.

Mas imaginando a minha filha nas mãos de animais capazes de tais façanhas é um instante enquanto cruzo a ténue linha que me separa da sua condição de criminosos e da crueldade de que se revelam capazes.

 

Ou ainda pior.

publicado por shark às 12:49 | linque da posta