A POSTA (ZOO)LÓGICA

A questão tem sido levantada por uma legião de gente preocupada, especialistas e assim, com o progressivo afastamento do Homem relativamente ao seu instinto animal.

Será, afirmam alguns, a consequência natural da evolução da espécie, progresso como outros entendem, defendendo quase todos que, apesar de tudo, isso representa uma melhoria significativa, um aprimorar inerente ao topo da cadeia alimentar onde assentamos arrais.

 

Contudo, para aqueles sem especialidade alguma como este vosso humilde servidor, este tipo de questões complexas podem ser equacionadas desde que devidamente redimensionadas e por isso a pessoa pode sempre avançar com uns bitaites do assunto focado numa parcela específica, num microcosmos que nos permita ambicionar algum valor acrescentado nas nossas cogitações.

Nesse sentido, e porque também me aflige esse desvio da besta em nós (neste caso a parte não violenta do animal, apenas uns quantos impulsos de reacção primária), fiz incidir a mente num aspecto específico do bicho que pelos vistos não queremos ser mas se calhar devíamos repensar melhor a coisa.

 

A minha preocupação tem a ver com as implicações do fenómeno nas relações amorosas (pura coincidência, eu até nem ligo muito a essa cena), nomeadamente na parte do engate que acaba por ser determinante para que as amorosas queiram ter relações.

Senão vejamos: a pessoa pode a todo o instante encontrar na natureza os exemplos de como o cortejar se perpetua nas espécies onde o refinamento do progresso ainda não chegou. Ou seja, podemos perfeitamente tentar decidir se é mais eficaz o cantar de galo ou o leque colorido do pavão.

 

Naturalmente não se pode exigir a qualquer leigo que aplique a metodologia científica toda, um gajo coloca a hipótese, vá, e depois tenta verificá-la com base na soma de dois mais dois que qualquer processador mixuruco consegue calcular.

A pessoa olha para a dupla de vaidosos, o galináceo a levantar a voz e as penas do pescoço e o pavão a tentar deslumbrar com o seu leque de cores, e depois concentra a atenção no comportamento das fêmeas destinatárias, a ver qual das aparências ilude melhor.

É vê-las, umas quantas a virarem logo costas ao galo com aquele ar de cantas bem mas não me alegras e o outro passarão todo espampanante a pavonear-se diante de algumas fêmeas com aquele olhar típico de quem pergunta: é só isso que tens para mostrar, palhaço? Tanta pena levantada que até mete dó e às tantas até é tudo o que levantas…

 

 

Inevitavelmente caímos na tentação de fazer a comparação directa com os rituais de acasalamento humanos, espertos, para ver se encontramos um paralelo que desminta o tal afastamento do instinto animal que os mais sábios denunciam.

E é aqui que começam a surgir os indicadores contrários à alegada tendência para nos tornarmos cada vez mais civilizados com tudo o que isso implica em matéria de sofisticação excessiva das coisas simples da vida.

É que pode ser indefensável (pronto, tá bem…) o regresso aos hábitos ancestrais, paulada na tola e bute lá até à caverna partir isso, mas é um facto que basta trocar o cantar de galo por miúdos e temos logo os ingredientes não para uma canja mas para o tipo de homem a quem chamamos músico. Da mesma forma é fácil substituir o colorido da cauda do pavão pelo do carrão ou outros sinais exteriores de riqueza e inerente qualidade superior com que alguns tentam adornar o anzol.

 

O paralelo salta à vista, inclusive nos resultados obtidos, e qualquer analista de pacotilha consegue lá chegar a partir de um simples trabalho de campo.

Claro que o rigor se perde, por exemplo, na fraca dimensão da amostra (que mais exemplos não faltam).

 

Mas eu já me alonguei nesta posta e disso sei bem que vocês não gostam...

publicado por shark às 12:28 | linque da posta