LÁPIS, BORRACHA E A FORÇA DA TRADIÇÃO

Desde sempre, os europeus adoraram desenhar. E não estou a falar de Foz Côa, do Leonardo da Vinci ou dos impressionistas mas sim de fronteiras. Esse é o maior apelo da alma artista dos que chegam a um poder suficientemente forte para poderem aplicar os seus dotes.

É um ver se te avias, bora lá criar mais um país, bora lá agora redefini-lo nas zonas mais polémicas, bute lá apagar aquele país do mapa. De lápis e borracha na mão, é como visualizo os gajos cheios de pica a quem confiam essa tarefa de pegar no atlas e desenhar novas linhas que não são férreas mas quando transformadas em Cortinas até ferrugem podem ganhar.

 

De pouco valeram os sarilhos que na maioria dos casos advinham desse impulso desenhador. Primeiro na própria Europa e depois cada vez mais longe, continente atrás de continente, bastava deitarem as mãos à gerência do estabelecimento e toca de lhe mudarem a casa de banho para a cave ou deitarem abaixo uma parede qualquer. Ou construírem uma nova, imaginária, e essa é que era a obra que mais chatices proporcionava com a vizinhança, gente que ainda por cima tinha os tiques próprios de quem morava há muito mais tempo nas terras que os europeus, eufóricos, inebriados com um poder papal, cuidavam de dividir com os seus riscos de conveniência sem se ralarem pevas com os limites originais que perduravam há séculos até à sua chegada.

 

Bom, e lá andaram entretidos a dividir o mundo em parcelas como se dos seus terrenos na província se tratasse, semeando broncas um pouco por todo o planeta e ainda bem que assinaram o papel em Tordesilhas ou ainda hoje andávamos embrulhados com os espanhóis e a América Latina andava toda à zaragata.

Em África foi o que se viu, na América do Norte ainda deu trolha entre ingleses e franceses e depois entre americanos e mexicanos. Pelo meio ainda havia uns peles-vermelhas mas o assunto foi resolvido à boa maneira europeia (que os americanos nunca renegaram a sua origem e mostram igual apetência para o desenho abstracto).

 

Contudo, o tempo passa e sem saberem como nem porquê os europeus viram-se de repente reduzidos de novo ao Velho Continente para darem largas ao seu discutível talento para a delimitação territorial. O regabofe mais recente (sim, ainda nem peguei pela borrada no Médio Oriente) teve como pretexto, ironia, a queda à martelada de uma fronteirinha em Berlim que ninguém imaginava ser a primeira pedrada de muitas que vieram a seguir em países do leste europeu que nasceram ou morreram como cogumelos nas telas dos desenhadores compulsivos.

 

A bronca foi de tal ordem nos Balcãs que parecia ter arrefecido de vez o ímpeto desenhador, até porque começava a tornar-se difícil em tempo de paz inventar pretextos para mais um traço aqui e além, por muito que 0,001% dos portugas reclamassem Olivença e ainda menos espanhóis se lembrassem do calhau de Gibraltar que também lhes foi gamado à má fila mas pelos desenhadores ingleses.

 

E foi então que alguém teve uma ideia genial para recuperar o espírito da coisa e proporcionar de novo uma oportunidade para mostrar ao mundo o jeito europeu para riscar no/do mapa.

 

O conceito da União Europeia em versão pré-federalista deve ter nascido assim.

publicado por shark às 12:19 | linque da posta | sou todo ouvidos