TODOS OS DIAS

Sobem apressados, olhares alienados pelo pensamento que os acompanha no caminho, preocupações e afazeres, desilusões e deveres, distraídos de tudo quanto os rodeia como aqueles que se cruzam agora em sentido contrário, alguns num esforço que acreditam necessário, visível dificuldade para caminhar mas determinados em não parar a corrida que a deles é a do final de vida que precisam sentir de pé e avançam habituados às dores enquanto recordam antigos amores ou organizam na cabeça o tempo que para eles é já tão curto mas sentem em cada dia como tempo demais, um aceno de cabeça aos restantes transeuntes que os ignoram na sua passada arrogante, na mesma direcção apenas mais depressa, olhar brilhante com a certeza de um horizonte repleto de amanhãs, ouvido no telemóvel ou dedos no teclado para responderem à mensagem, tudo bem e uns bjs, atarefados a todo o tempo como se fosse essa a medida do seu viver, uma vida a correr, a estrada atravessada sem olhar para o lado e depois a calçada igual, olhar perdido pelas montras ou pelo chão, às vezes para o céu por questões meteorológicas, adiante que a pressa é permanente e, paradoxo, parece que vai acabar quando o sol se puser e nem dão por quem vacila no percurso, à procura do número de uma porta qualquer, um homem ou uma mulher estranhos ao local que tentam reler a morada num pedaço de papel como se ele pudesse transformar-se de repente num mapa do tesouro que é chegar ao objectivo traçado, o caminho interrompido para pedir ajuda a alguém, onde fica Sacavém?, e afinal não era por ali e voltam para trás seguindo agora o mesmo rumo das crianças que passam a correr perante o olhar do ancião comerciante que lhes sorri, vassoura na mão para varrer a calçada por causa do pó no estabelecimento onde entra a senhora do bairro, cliente habitual, para a sua compra normal que ele já conhece de cor e salteado, gente que caminha para todo o lado enquanto o dia não se esgota, exausto pela rapidez que lhe é imposta pela vida a acontecer, passagem fugaz, enquanto o sol não se encosta na linha do horizonte para espreitar por um instante o que nesse dia a noite lhe traz.

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publicado por shark às 16:38 | linque da posta