A POSTA NA MECÂNICA DA COISA

Então a pessoa até tem um carro usado e com bastante quilometragem, mas muito estimado e com as revisões sempre feitas a tempo e horas e o óleo mudado quando deve ser e tudo mais. E um dia levanta-se de manhã, veste uma bela fatiota para ir a uma festarola qualquer, chega ao carro, dá à chave de ignição e népia.

Pois é, a pessoa sente isso quase como uma traição, uma partida de mau gosto do destino.

É precisamente o que acontece quando um gajo enfrenta um daqueles flopes de que nem queremos ouvir falar. Porque na maioria dos casos é coisa acerca qual nada sabemos nem queremos saber.

 

Nem vale a pena artilharem o comentário da praxe: mas como é que o tubarão sabe o que se sente na sequência de um flope? Sim, o tubarão, esse magnífico e muito funcional exemplar do género, já assumiu sem tretas que sim, não é (ele, o outro) alheio a esse fenómeno. E só falo no assunto precisamente por ser tão rara em mim a experiência que nem de perto teve hipótese de se banalizar e deixar de ser tema de conversa.

Agora que já acertamos os detalhes mais melindrosos da questão, volto à minha abordagem automobilística da coisa, com a vossa licença.

 

Na verdade, a pessoa nem sabe de há de rir ou chorar quando o motor de arranque se esganiça todo e as velas até produzem faísca em profusão mas nada. A viatura abana toda, parece sempre que está quase quase a pegar e até a esperança parece arrebitar, porquanto ilusória. E de repente um gajo tem a malta (na maioria das vezes só uma pessoa, claro) com os olhos postos no veículo como se de um chasso velho se tratasse. Quer dizer, a pessoa, a mirone, até pode nem fazer outro olhar que não o de perdida de gozo mas a disfarçar, mas quem se vê com os dedos na chave e o motor em silêncio vê olhares comprometedores em todo o lado.

É que para qualquer gajo, o seu... carro é sempre o melhor do mundo. Mesmo um Fiat Uno assume proporções de limusina e basta um spoiler traseiro para se transformar de imediato num carro de corrida. E é isto que acrescenta desilusão à surpresa (porque quando o carro não pega parece sempre que acontece à pessoa pela primeira vez) e cria um enorme embaraço ao proprietário do bólide, ainda que a reacção de quem fica pendurado/a relativamente à boleia prometida seja complacente (deixa lá, isso podia acontecer com um BMW e assim...).

 

Na prática, um gajo exige absoluta fiabilidade ao seu automóvel. Pelo menos enquanto não atinge certa idade e já não há peças sobressalentes disponíveis para o modelo nem intervenção, digamos, mecânica que lhe valha. Só aí a pessoa se convence de que não vale a pena investir mais na máquina e dedicar-se à pesca, com demasiadas falhas na ignição para se poder acreditar que o motor não gripou.

Além disso, o condutor masculino tende a identificar-se em demasia com o objecto de culto que a viatura representa e acaba por lhe vestir os fracassos como seus, numa espiral de frustração que ainda acaba por acrescer factores de mau contacto como o frio excessivo ou outros. Também por isso o flope tradicional (não é o do motor que vai abaixo a meio do caminho - tema para futura posta, é o do que nem chega a pegar e não vai lá sequer de empurrão).

 

Esta questão acaba por justificar o argumento de alguns que, possuindo apenas um 2CV que os aceleras adoram ridicularizar pelo tamanho e pela potência do motor, defendem que tamanho e até potência não são mesmo documento.

É que podemos até ter um Ferrari dos melhores mas quando damos à chave e o motor não pega dávamos o dedo mindinho para termos o tal 2CV, um carro tão desenrascado que se tudo o resto falhar até se pode fazer pegar à manivela...

publicado por shark às 15:00 | linque da posta | sou todo ouvidos