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CHARQUINHO

Sedento de aprendizagem, progrido pelos caminhos da vida numa busca incessante de espíritos sábios em corpos docentes. (sharkinho at gmail ponto com)

CHARQUINHO

Sedento de aprendizagem, progrido pelos caminhos da vida numa busca incessante de espíritos sábios em corpos docentes. (sharkinho at gmail ponto com)

03
Jan11

A POSTA NA MECÂNICA DA COISA

shark

Então a pessoa até tem um carro usado e com bastante quilometragem, mas muito estimado e com as revisões sempre feitas a tempo e horas e o óleo mudado quando deve ser e tudo mais. E um dia levanta-se de manhã, veste uma bela fatiota para ir a uma festarola qualquer, chega ao carro, dá à chave de ignição e népia.

Pois é, a pessoa sente isso quase como uma traição, uma partida de mau gosto do destino.

É precisamente o que acontece quando um gajo enfrenta um daqueles flopes de que nem queremos ouvir falar. Porque na maioria dos casos é coisa acerca qual nada sabemos nem queremos saber.

 

Nem vale a pena artilharem o comentário da praxe: mas como é que o tubarão sabe o que se sente na sequência de um flope? Sim, o tubarão, esse magnífico e muito funcional exemplar do género, já assumiu sem tretas que sim, não é (ele, o outro) alheio a esse fenómeno. E só falo no assunto precisamente por ser tão rara em mim a experiência que nem de perto teve hipótese de se banalizar e deixar de ser tema de conversa.

Agora que já acertamos os detalhes mais melindrosos da questão, volto à minha abordagem automobilística da coisa, com a vossa licença.

 

Na verdade, a pessoa nem sabe de há de rir ou chorar quando o motor de arranque se esganiça todo e as velas até produzem faísca em profusão mas nada. A viatura abana toda, parece sempre que está quase quase a pegar e até a esperança parece arrebitar, porquanto ilusória. E de repente um gajo tem a malta (na maioria das vezes só uma pessoa, claro) com os olhos postos no veículo como se de um chasso velho se tratasse. Quer dizer, a pessoa, a mirone, até pode nem fazer outro olhar que não o de perdida de gozo mas a disfarçar, mas quem se vê com os dedos na chave e o motor em silêncio vê olhares comprometedores em todo o lado.

É que para qualquer gajo, o seu... carro é sempre o melhor do mundo. Mesmo um Fiat Uno assume proporções de limusina e basta um spoiler traseiro para se transformar de imediato num carro de corrida. E é isto que acrescenta desilusão à surpresa (porque quando o carro não pega parece sempre que acontece à pessoa pela primeira vez) e cria um enorme embaraço ao proprietário do bólide, ainda que a reacção de quem fica pendurado/a relativamente à boleia prometida seja complacente (deixa lá, isso podia acontecer com um BMW e assim...).

 

Na prática, um gajo exige absoluta fiabilidade ao seu automóvel. Pelo menos enquanto não atinge certa idade e já não há peças sobressalentes disponíveis para o modelo nem intervenção, digamos, mecânica que lhe valha. Só aí a pessoa se convence de que não vale a pena investir mais na máquina e dedicar-se à pesca, com demasiadas falhas na ignição para se poder acreditar que o motor não gripou.

Além disso, o condutor masculino tende a identificar-se em demasia com o objecto de culto que a viatura representa e acaba por lhe vestir os fracassos como seus, numa espiral de frustração que ainda acaba por acrescer factores de mau contacto como o frio excessivo ou outros. Também por isso o flope tradicional (não é o do motor que vai abaixo a meio do caminho - tema para futura posta, é o do que nem chega a pegar e não vai lá sequer de empurrão).

 

Esta questão acaba por justificar o argumento de alguns que, possuindo apenas um 2CV que os aceleras adoram ridicularizar pelo tamanho e pela potência do motor, defendem que tamanho e até potência não são mesmo documento.

É que podemos até ter um Ferrari dos melhores mas quando damos à chave e o motor não pega dávamos o dedo mindinho para termos o tal 2CV, um carro tão desenrascado que se tudo o resto falhar até se pode fazer pegar à manivela...

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