MEDICINA (SEM) ALTERNATIVA

Parecendo que não, uma pessoa até aprende qualquer coisita a ver televisão, mesmo quando opta pela programação mais recreativa do que instrutiva.

No caso concreto foi com o doutor House que dei comigo a fazer um exercício de comparação daqueles em que só podemos engolir em seco e acreditar que aquilo só acontece nos filmes e provavelmente a realidade deles (a dos americanos) até é igual à nossa e assim...

 

A cena tem a ver com uma jovem montes de saudável que de um momento para o outro fica às portas da morte dentro do hospital onde até calha existir a super equipa do Dr. House, os detectives da medicina.

E às tantas o protagonista descobre a origem do problema e desabafa pelo facto de a jovem ter omitido alguns sintomas que fariam toda a diferença no seu (quase sempre) infalível diagnóstico.

Claro que como qualquer portuga só posso esboçar um sorriso perante o facto de um médico se mandar ao ar pela omissão da paciente relativamente à sintomatologia.

 

Qualquer utente dos serviços médicos portugueses, públicos ou privados, já constatou o enfado da maioria dos clínicos quando vamos além de uma ou duas queixas. À terceira já o doutor está a prescrever o que lhe parece adequado e a sua cabeça já vagueia pela preocupação com a meteorologia nas Caraíbas ou noutro paraíso qualquer onde o próximo congresso lhe proporcionará os banhos de conhecimento científico que fazem o House parecer um leigo na matéria.

A verdade é que qualquer paciente que arrisque mais do que, vá lá, dois sintomas assume imediatamente o estatuto de hipocondríaco e passa a falar para as paredes.

 

Esta realidade factual e vivida por este vosso humilde blogueiro, publicamente enxovalhado num hospital privado por se dirigir às urgências com uma dor aguda no peito e imensas dificuldades respiratórias quando afinal não se tratava de um enfarte mas de uma simples crise de ansiedade, só pode estar na origem de muitos erros de palmatória que se traduzem na multiplicação de casos de pessoas que recebem alta para depois se converterem em mais uma baixa na guerra dos utentes contra a atitude corporativa dos médicos e por isso mesmo nunca assumida por quem a provocou.

Claro que depois de uma pessoa se ver confrontada por sistema com o mesmo desinteresse aparente dos médicos em ouvir as nossas queixas e muito lestos em assumir diagnósticos e a prescrever medicações em função do nosso historial registado (como tenho pedra nos rins, qualquer pontada nas costas será sempre entendida como uma cólica renal) ou da conversa mantida e porque é notório o esforço de contenção na prescrição de exames complementares de diagnóstico (sobretudo no público, que no privado a coisa é paga pelo paisano ou por uma seguradora), lá está uma pessoa à mercê da combinação astral mais ou menos favorável e a arriscar-se a tomar aspirinas para contrariar um cancro no pulmão...

 

Seria leviano da minha parte acreditar que o Dr. House, personagem de ficção, é tão real como o aspecto encantador dos hospitais que servem de pano de fundo para as populares séries que nos ensinam a perceber que é um milagre a pessoa sobreviver incólume com tantas doenças maradas e, em boa parte, incuráveis que por aí andam.

Mas ainda mais ingénuo seria se acreditasse que a maioria dos médicos levam consigo para a casa a preocupação com determinado paciente ao ponto de quase perderem o sono para lhes descobrirem o problema e definirem a abordagem terapêutica mais adequada para garantirem a salvação ou, pelo menos, uma melhoria significativa do seu estado de saúde em vez de se preocuparem com o cumprimento dos objectivos definidos por um laboratório farmacêutico para garantirem a presença no tal importantíssimo congresso montes de científico no Brasil ou na Tailândia, numa viagem ao conhecimento profundo ao longo da qual irão descobrir a pólvora sem fumo e aprender o suficiente para deixar um qualquer House ao nível de um mero aprendiz de curandeiro.

publicado por shark às 14:47 | linque da posta | sou todo ouvidos