A POSTA MALUQUINHA

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Foto: sharkinho

uma estranha forma de tristeza que se apodera aos poucos do quotidiano das pessoas como nós. Na maioria dos casos, embora não diagnosticada, essa tristeza traduz uma depressão clínica induzida pelas agressões sistemáticas de uma forma de vida essencialmente hostil. E manifesta-se de muitas formas, com especial incidência no individualismo exacerbado, na fuga aos “outros” que acaba por ser uma fuga de nós próprios, o caminho mais curto para a inevitável solidão.

O mundo que vivemos, repleto de maravilhas e de doces tentações, aprisiona a nossa consciência numa jaula infestada de papões. Como animais feridos, reagimos com medo, com agressividade ou com resignação a essa sensação incómoda de não darmos valor ao que interessa na vida, em qualquer vida, e de nos mergulharmos num tormento bizarro, num torpor que nos afasta de tudo quanto não seja simples e superficial. A apatia que nos converte em criaturas eternamente insatisfeitas com tudo o que nos é oferecido de bandeja e a maioria só pode sonhar.

Um contra senso, afinal, que se reflecte nesta realidade virtual onde cada um lida como pode com os seus fantasmas e com as consequências da exposição pública dos seus anseios e das suas limitações. Comunicamos a nossa perturbação sob as mais variadas capas, protectoras de uma fragilidade que quantas vezes pintamos com tons de arrogância e de uma superioridade moral que não acreditamos por não a sentir.
Denunciamos nas entrelinhas a dor que nos provoca a desadaptação ao ritmo alucinado que esta sociedade de merda nos impõe, nos intervalos da correria atrás das cenouras imaginárias que nos impingem como objectivo e que não passam de lenitivos materiais que não nos compensam do desgaste sofrido a porfiar pelo enriquecimento de alguém. Do nosso também, essa miragem da “vida melhor” que nos empurra em diante para o precipício da instabilidade emocional, da frustração de abdicar da felicidade genuína em prol de uma sucessão de dias iguais. Até a velhice chegar e com ela se constatar, em boa parte dos desfechos, que não valeu a pena.

A amizade pura e desinteressada, altruísta, não passa de uma ilusão na esmagadora maioria das relações. O sexo reduz-se ao essencial, converte-se aos poucos numa obrigação e existem os que o procuram com afinco como única alternativa para receber o carinho que nos falta como existem os que dele abdicam por falta de estímulo ou pela realidade crua da disfunção sexual. Outro preço a pagar pela trampa que nos enfiam pelo canal da sopa com uma alimentação envenenada e pela mona com um massacre de mensagens subliminares que nos obriga a sermos modelos fotográficos, ícones de perfeição, em detrimento dos cidadãos normais e sem merdas que nos ambicionamos mas os tais “outros” não estão preparados para tolerar.
E o amor também definha nesta enxurrada de distracções e de equívocos que nos afasta do essencial.

Fachada e nada mais. Casas luxuosas e carros a condizer, custeadas pela penosa constatação de não vermos os filhos a crescer. Ligações frágeis que se desfazem ao primeiro abanão. E depois a depressão, a falta de tesão, enfrentada a comprimidos mais ou menos azuis. Ou ignorada, pontapé prá frente e fé em deus, até à completa descaracterização dos valores e das fés que nos constituem de raiz. Até à amargura crónica que nos abraça num conflito interior que extravasa as fronteiras quando os “outros” se convertem em ameaças potenciais que urge combater, na nossa mente em guerra com um inimigo invisível que parece capaz de vencer todas as batalhas, o responsável anónimo pela nossa condição destabilizada e infeliz.

Isto não passa de uma generalização e não somos todos iguais na percepção do que nos rodeia, tal como são escassos os que se conseguem entender a si mesmos no meio da balbúrdia desta forma de vida estapafúrdia que nos desorienta as emoções.
O desequilíbrio é notório e faz-se sentir nas ruas como no interior de cada casa, de cada uma das carolas que se contabilizam em qualquer multidão.
Na minha, assumo-o sem receio de me expor ao escárnio dos que se acreditam diferentes para melhor ou têm a sorte de o poderem comprovar.

Vivemos endividados pelas prestações suaves das nossas opções condicionadas.
Pagamos com lágrimas por verter as consequências nefastas que nos fazem enlouquecer em existências madrastas. Palmadinhas nas costas, sucedâneos de amizade, de felicidade e de amor como compensação. Ou apenas as suas representações fugazes em momentos de euforia que se extinguem como fósforos à mercê do vendaval de agressões reais e imaginadas.

Perdemos a razão. E enquanto não o admitirmos será impossível recuperá-la.
publicado por shark às 11:15 | linque da posta | sou todo ouvidos