A POSTA NO PERIGO AMARELO

De acordo com a versão familiar o meu avô paterno, que por pouco não conheci porque entendeu passar-me o testemunho alguns meses antes de eu poder agarrá-lo, temia imenso o perigo amarelo. Não eram os russos, não eram os espanhóis, não eram sequer os hippies americanos que ofereciam (quanta generosidade...) droga embutida em rebuçados e outras iguarias, eram mesmo os chineses.

E eu, que em teoria me quero distante de quaisquer racismos ou xenofobias, tento perceber porque herdei a aparente aversão instintiva ao tal perigo que representava a nuvem negra no horizonte do meu iletrado mas sagaz parente.

 

Temer um destino semelhante ao reservado aos tibetanos, uma ocupação militar do tipo praga de gafanhotos, nem tínhamos munições que chegassem para todos, é um receio que me soa ridículo quando afinal até consta que eles nem enterram cá os seus mortos e por isso não é com certeza a apropriação de território um dos seus interesses.

Claro que, ainda assim, uma pessoa põe-se na pele dos patrícios do Dalai Lama e até se arrepiam logo os pelos que conservam o registo genético dos portugas de 1640. Isso não invalida, porém, que a perspectiva da entrada de hordas com olhos em bico por todos os lados tresande a ridículo. Até porque usurpar um país enterrado até ao pescoço implica arriscar a passada na mesma areia movediça e ter que comprar a pronto um sarilho que se pode suportar em suaves prestações ao longo dos anos intermináveis de agonia financeira que se perfilam, esses sim, como exércitos invasores da nossa qualidade de vida burguesa.

 

Sobra então o medo à invasão das divisas. Valha-nos Nossa Senhora dos Aflitos que nos transformam o comércio local numa sucursal made in china e nunca mais voltamos a ter lojas dos trezentos sem pronúncia mandarim.

Tento perceber, sem sucesso, se passaria por aí o temor instintivo do meu avô aos chineses. Contudo, mais uma vez o senso comum me deixa em palpos de aranha para justificar alguma medida de precaução contra essa ameaça externa insidiosa que pode comprar-nos as almas ao ponto de recebermos o Presidente da China como um imperador e deixarmos o Chefe de Estado de uma nação que era soberana (sim, o Tibete) sem direito sequer a uma recepção oficial.

Espera lá... Mas isso até aconteceu mesmo em Portugal.

 

E é aqui que todo o meu eu paranóico se agita em teorias da conspiração, monstros horrendos saídos da minha imaginação fértil em ervas daninhas e necessariamente influenciada por uma linhagem de gente que jamais lhes teria devolvido Macau sem ao menos uns tiritos como ainda demos nas saudosas Goa, Damão e Dio.

Vamos lá a ver. Somos todos gente boa, malta porreira e tal, mas isso de uma pessoa se submeter ao alegado interesse do colectivo ao ponto de abdicar da própria liberdade de decisão acerca de quantos filhos pode ter é mesmo um cenário de terror para nós tetranetos dos herdeiros do espírito da Revolução Francesa. Mao, Mao maria que isso nem pensar e fiquem lá na vossa terra armados em controleiros que nós por cá ainda mandamos em nós próprios e o livre arbítrio só pode ser condicionado por via de reviengas legislativas e manipulações mediáticas que nos arrastam como folhas ao vento de Outono as correntes de opinião que depois, como se vê, nos fecundam à grande e à francesa e a nossa Revolução envelheceu imenso e está com péssima cara.

 

Porém, o povo, essa massa anónima de gente que pensa cada qual por si mas no fim acabam por pensar quase todos o mesmo, vê o país à rasca na sua própria aflição ao fim de cada mês e até se predispõe a ir dizer adeus e agitar umas bandeirolas à comitiva que vinha a Portugal, como o Chavéz, baldar-se a uns trocados para nos aliviar a pressão dos mercados e então se calhar até são boas pessoas e agora até têm casinos e tudo e ninguém fixou sequer o nome do tal Nobel da Paz chinês que comprou uma guerra muito desigual e que dificilmente conseguirá ganhar e por isso a malta, o povo, até se deixa ir no embalo e tanto faz se o pilim chega da Venezuela, da Líbia, de Angola, da China ou da Papua Nova Guiné.

Tão dóceis e vulneráveis como cães famintos vadios abrimos os portões do castelo seja a quem for que abra as dos cofres para nos comprar com uma esmola que, com esta crise tão assustadora que espanta as pessoas para tudo quanto é concerto musical, jogo de futebol ou centro comercial onde se reúnam multidões, unidos venceremos, soa sempre a pão para a boca, a salvação dos couratos lusitanos. E essa, confiada a terceiros em vez de batalhada por quem a procura, nunca pode ser perigosa porque o dinheiro não mata, só engorda.

 

E não importa se é amarelo, vermelho ou de qualquer outra cor o perigo subjacente ao estatuto de quase refém de outra nação que um país pode assumir quando cede à tentação fácil que o dinheiro representa em tempo de aflição.

 

É sobretudo nessas circunstâncias que os países hipotecam a soberania mais depressa até do que o dinheiro perde a cor.

publicado por shark às 11:12 | linque da posta | sou todo ouvidos