O CHARQUINHO ASSAPAR

Estou certo que desde o início dos tempos as pessoas, mesmo as pré-históricas, sentiram a necessidade de distinguir os melhores de entre a multidão, de exibir de alguma forma o reconhecimento do mérito, por exemplo do melhor caçador do clã em determinada época.

E estou igualmente convicto de que o nosso antepassado no centro das atenções da rapaziada peluda apreciava esse momento de glória, ainda que efémera, por se sentir especial e por achar que tinha valido a pena esfolar um bocado mais as canelas e levar umas marradas no corpo para conseguir afiambrar o mamute mais corpulento da manada.

Claro que a simbologia desse tempo até podia implicar um atesto colectivo de porrada no homenageado, mas se era assim que interpretavam a coisa é garantido que ele, mesmo todo partido no meio do chão, se sentia orgulhoso da proeza e tinha ganho o dia.

 

Nos nossos dias, com maior número de candidatos/as aos lugares de destaque, a competição por um lugar ao sol, por esse momento de destaque de entre a multidão, é feroz entre quem a procura como uma fonte de sentido da vida e constitui tarefa quase impossível para os restantes, nomeadamente os que aliem a falta de ambição à de talento ou de sorte ou de seja o que for que produz as distinções como a que serve de mote a esta posta.

Na blogosfera, onde toda a gente trabalha de borla, para além do gozo que nos dá fazer acontecer, apenas a estatística (sim, as audiências) e o reconhecimento por parte de outrem constituem incentivo para que alguém dê o melhor de si nesta via de comunicação.

Ora, estando a estatística condicionada por factores tão aleatórios como o jeito para bolar esquemas para atrair motores de busca, o estatuto de figura pública do autor, o tema de fundo do blogue ou a simples movimentação colectiva a cada momento, uma pessoa tende a enfatizar o reconhecimento, as distinções, como justificação para tanto tempo e energia investidos numa realização que, por todos os motivos e alguns, nunca garantirá a imortalidade seja a quem for. E ainda lhe garante umas chatices dispensáveis.

 

O reconhecimento que se pode obter na blogosfera chega-nos sobretudo do eco que nos dá quem nos visita, comentários e emails que dão conta da impressão que causamos com aquilo que somos capazes de produzir nesta plataforma.

Os links noutros blogues, outro medidor potencial da qualidade do trabalho, vão perdendo aos poucos esse estatuto pelo simples facto de que basta a ligação de amizade para os justificar, além de que não raras vezes existem blogues com menos visitas diárias do que links espalhados por aí…

Restam poucas alternativas para a constatação do tal reconhecimento público de que todos gostamos, sobretudo quando as queremos insuspeitas (se nada beneficiam com a escolha em causa) e isentas (quando nenhuma ligação ao autor as motiva) e preferencialmente abrangentes (por não lhes faltarem opções para o efeito).

 

Nesse contexto, uma distinção do Sapo acaba por ser, neste meio blogueiro onde não existem Óscares, uma lança em África, uma espécie de medalha virtual para quem a pode exibir durante umas horas com a satisfação do caçador de mamutes que se vê espancado pelo clã (sim, nisto da blogosfera também há muitas invejas e ciumeira e vontade não faltaria a muitos/as de molhar a sopa nas barbatanas do feliz contemplado).

 

E por isso, cá estou de novo em bicos dos pés a cantar vitória enquanto perscruto o horizonte em busca da melhor presa e vou afiando a ferramenta.

publicado por shark às 17:56 | linque da posta | sou todo ouvidos