A POSTA QUE NO LUGAR DOS RESPONSÁVEIS NEM CONSEGUIA ENFRENTAR UM ESPELHO

Sempre que me predisponho a ver um noticiário televisivo acabo por me confrontar com situações que me perturbam.

Hoje calhou apanhar uma reportagem da SIC acerca do cemitério de Mueda, em Moçambique, onde morreram portugueses a lutarem (julgavam que) pela Pátria e alguns, os mais pobres, acabaram sepultados porque o seu país salazarista alegadamente tão patriota obrigava as famílias a custearem a trasladação dos seus.

 

Se à ditadura não posso perdoar a desfaçatez, o nojo que acima se deixa antever por negligenciarem em simultâneo os mortos e os vivos que os choravam, à Democracia não deixo de imputar a vergonha por permitir tamanho abandono das memórias dos que, mesmo ao engano, perderam a vida por algo que lhes diziam ser precioso, a sua Pátria. Era essa a firme convicção dos que eram arrancados a uma vida humilde para serem despejados numa terra hostil que lhes ensinavam a chamarem sua, por isso combatiam, recrutas, e por isso fazem parte do mesmo espírito que nos leva a louvar os que tombaram, por exemplo, a enfrentar o invasor espanhol.

Cada um dos soldados portugueses tombados a lutarem pelas antigas colónias ultramarinas é tão herói, na essência do seu papel e na missão de que eram incumbidos, como os que pereceram em Aljubarrota ou em Alcácer-Quibir.

 

As imagens das sepulturas degradadas, escondidas por detrás do capim por cortar, em absoluto abandono, agrediram-me por implicarem um abastardamento, mais um, por parte dos nossos governantes quanto a tudo aquilo que para mim uma Pátria significa.

Honrar os nossos mártires, pelo seu sacrifício e porque são nossos, é um imperativo moral. É uma obrigação tão importante como o respeito pela bandeira, pelo hino ou por qualquer outro dos símbolos da Nação que afirmamos amar.

Ver aquilo e ouvir a jornalista afirmar que o Estado Português não disponibiliza verba para a trasladação daqueles militares para junto dos familiares que deles ainda se recordam e dos outros portugueses que os devem homenagear é um soco no estômago, uma infâmia.

 

Ser patriota é, cada vez mais, a única defesa contra o lento processo de esboroamento da soberania à mercê da nova ordem europeia onde os mais pequenos não sobrevivem senão subjugados à progressiva normalização imposta pela sua fragilidade económica.

Por outro lado, do amor a uma Pátria faz parte o respeito que se exibe e se transmite de geração em geração para assegurar os vínculos que devem existir entre um cidadão e o país que é o seu.

 

E nessa perspectiva estas bandalheiras descaradas, estes desmazelos imperdoáveis, constituem, no meu entender e pelo menos no plano ético e moral que uma Pátria digna desse nome não dispensa, uma traição dos que escolhemos para gerirem o destino colectivo, uma mancha indelével que conspurca e desautoriza cada um dos responsáveis por omissão quando se empoleiram nas suas glórias fabricadas para se mascararem de pretensos amantes deste Portugal valioso que enterram aos poucos no jazigo paulatinamente construído pela sua evidente negligência.

publicado por shark às 21:46 | linque da posta | sou todo ouvidos