A POSTA NA FALTA DE COMPARÊNCIA

Assisti, anos atrás, à degradação e inevitável desaparecimento de uma colectividade que respirava saúde, movimentava centenas de pessoas em torno do triunvirato desporto, recreio e cultura e parecia talhada para ser eterna, pois quem geria os destinos da pequena organização entregava-se à tarefa de corpo e alma e nem a projecção pessoal constituía um prémio por aí além em função do tempo e do esforço que ofereciam a todos quantos usufruíam da muitas opções ali criadas.

Claro, havia sempre uns melgas, pequenos arruaceiros, que tentavam desestabilizar tudo aquilo que sabiam não serem capazes de levar a cabo. Contudo, os líderes da colectividade, tão duros quanto sagazes, mantinham esse pequeno núcleo a prudente distância e acabavam por ficarem a falar sozinhos sempre que se revelavam os asnos que, de facto, eram.

Mas os anos passaram e os fundadores, estoirados, passaram o testemunho a outros menos capazes e mais tolerantes para com a presença indesejável do tal grupelho que entretanto crescia na mesma proporção da degradação do nível clube e das pessoas que o faziam. Não tardaram a surgir os sinais perturbadores a que poucos prestavam atenção e ninguém mexia uma palha para contrariar.

 

Em escassos anos os sucessores dos pioneiros deitaram a perder boa parte da realização colectiva, apesar de se revezarem no comando do colectivo com mais alguns da sua igualha, alheios ao efeito espantalho dos arruaceiros que afastaram em definitivo as pessoas de bem que frequentavam a colectividade e a faziam acontecer.

À debandada sucederam-se as complicações financeiras e chegou o dia em que ninguém se candidatava à direcção cessante do clube. Avançaram os menos recomendáveis, na prática os únicos que frequentavam as instalações e por isso legítimos nas suas pretensões.

Pelo menos terá sido isso que os associados, num fenómeno de abstenção em massa, terão acreditado quando entregaram o que restava a tal gente, por omissão.

Dois ou três anos depois o clube, na altura uma imensa taberna, desapareceu e acabou por ser demolida a sede para ser construído no local um luxuoso edifício de habitação.

 

Na história que acima resumi encontro a dos anos mais recentes do nosso país. Os paralelos encontro-os em vários aspectos, mas centro a minha atenção no facto de a colectividade que me serve de (mau) exemplo ter desaparecido acima de tudo pelo cruzar de braços de quem se divorciou do projecto quando os rufias e os incapazes entraram em cena.

Quando apontamos os dedos à classe política e ao nível rasteiro da sua imagem, à semelhança da sua capacidade e prestação, estamos a fazer exactamente o mesmo que fizeram aqueles que desertaram da sua obrigação moral e confiaram os destinos do que era a seu a alguém a quem não reconheciam qualquer mérito excepto o de estarem lá.

Ou seja, os que estão lá acabam por ser os que tomam as rédeas. E esse é o retrato fiel das organizações partidárias que nos fornecem a maravilha de deputados e de governantes que temos conhecido desde o 25 de Abril.

 

Não sei se é um dado adquirido, esta falência generalizada (mundial) de colectivos às mãos de gente menos dotada, menos empenhada, mas assídua e só por isso recrutada para os cargos a partir dos quais, como eucaliptos, olham por si enquanto tudo em seu redor desertifica e definha até nada restar.

Sei, isso sim, que o fenómeno é global e está a afectar Portugal de uma forma mais notória do que a outras nações mais bem equipadas para enfrentarem dias maus. Isto não é um mal da esquerda ou da direita, como se constata pelos candidatos a sucessores possíveis de José Sócrates (e o próprio, por comparação com os antecessores). São os que há, os mais hábeis de entre os que foram ocupando as sedes dos partidos até alguém lhes entregar a chave da porta e evacuar para o remanso do sofá.

É disso que se trata e por isso não tenho, como a maioria de nós, tanta legitimidade assim para apontar dedos acusadores às suas falhas como numa Democracia saudável e participada me competiria.

 

Sou um dos culpados pelo estado a que este país chegou, assumo-o com enorme desgosto e pouca coragem para dar a volta à situação na parte que me toca. Como muitos outros que tentaram, de alguma forma, aproximar-se dos partidos políticos para tentar mudar o sistema pela raiz, acabei por me sentir inconveniente, ignorante, não alinhado no esquema "correcto" de fazer as coisas, demasiado revolucionário para os interesses estabelecidos e para o arranjinho já montado onde apenas se aceitavam colaboradores, candidatos a coisas pequenas na falta de opções, e nunca gente com ideias próprias ou, pior ainda, capazes da heresia de porem em causa qualquer tipo de regra ou de doutrina emanada de cima.

A realidade dos partidos como a conheci faz-se mesmo assim. Ninguém é corrido se não levantar muitas ondas mas os grupos já criados deixam bem claro o estatuto de persona non grata a quem não amochar.

 

A Democracia político-partidária começa por acontecer dessa forma nos pequenos núcleos regionais. Não interessa a ninguém a capacidade de liderança mas sim a habilidade para promover alianças, casamentos de conveniência que permitem a disputa interna do poder de uma forma ordeira entre os (mesmo muito) poucos que frequentam a vida dos partidos e por isso tomam as decisões.

Depois a coisa vai subindo ao nível distrital, passando ao nacional e está assim criada a catapulta de medíocres a que faço muitas vezes alusão. Sobem os que lá estão, depois de torpedeados todos quantos possam fazer frente a meia dúzia de militantes que empurram de piso em piso os mais capazes numa espécie de jogo da cadeira onde muitas vezes resta apenas um para a disputar. E o ciclo perpetua-se, por via das cedências em excessos movidos pela ambição pessoal que comprometem o colectivo emaranhado numa teia de silêncios cúmplices.

 

É esta a verdade dos factos, simplificada. A classe política que temos é a disponível e tirando aqueles sobem outros do mesmo calibre ou pior e quando são esses ao leme, os que estão no lugar que os melhores renegam para não se sujarem, para não estragarem as suas vidas pacatas e sãs com tudo aquilo que a vida política hoje acarreta, e surge no horizonte a borrasca é mesmo de temer o naufrágio da coisa.

Claro que em tempo de vacas gordas qualquer um brilha e a malta até lhe reconhece elevada competência e lhe agradece o cumprimento de um papel que não reclamam para si. O pior é quando a coisa descamba e começa a faltar o verdadeiro motor do entusiasmo ideológico, o dinheiro, e percebemos todos, os de fora, que quem lá está não percebe nada do que está a fazer e quando damos por ela já estamos com a cabeça no cepo e achamos que não temos culpa alguma.

 

No entanto, e apesar da atenuante de ser muito jovem nessa altura, sou um dos responsáveis pelo desaparecimento da colectividade a que acima faço alusão e à qual dei bastante do meu tempo mas não o suficiente, como se viu.

E por isso não é assim tão relevante de que cor são os escolhidos para a governação, serão sempre aqueles que lá estão ou piores. Os outros não acham que um país valha a pena o sacrifício de enfrentar os grupelhos a quem interessa confinar a Democracia a pequenos feudos que se ligam a feudos maiores numa cadeia hierárquica de eficiência quase militar mas aplicada apenas ao esforço necessário para que o esquema montado funcione e ninguém, dos que lá estão, se sinta prejudicado na ambição.

 

E toda essa energia investida na promoção pessoal por etapas é desviada do objectivo principal que acaba reduzido a um cliché para ornamentar a campanha eleitoral de fachada ao longo da qual se propõem aos de fora os rostos dos (mesmo muito) poucos que melhor souberam lidar com os umbigos e suas exigências, os tachos para o amigo de longa data ou a cunha para o cunhado do empresário que mais contribuiu financeiramente ou os cargos elegíveis para uma massa anónima de presentes que aproveitam a preguiça dos ausentes para chegarem onde nada o faria prever.

 

As excepções deverão existir e aí reside a esperança que resta. Mas é se aparecerem a tempo.

(Mesmo, mesmo muito) depressa...

publicado por shark às 16:07 | linque da posta | sou todo ouvidos