IRMÃOS DE SANGUE

Agora que a mais bizarra monarquia do Mundo se prepara para a sucessão com mais um clone do clã Il Sung, prendeu a minha atenção a reacção do Partido Comunista Português relativamente à atribuição do Prémio Nobel da Paz a Liu Xiaobo, um corajoso activista chinês que ousou enfrentar o monstro que de tantos horrores tem sido capaz. Mais um mártir potencial, na prática.

E deu-me arrepios, esta súbita associação de ideias entre o macabro regime norte-coreano, o perigoso regime chinês e a falta de escrúpulos dos comunistas portugueses, quando me lembrei de tempos em que este país quase mergulhou nesta versão arcaica de esquerda totalitária e me ocorreu que jamais quererei que a minha filha cresça sob o jugo deste tipo de ideologia.

 

Tal como aconteceu relativamente ao Tibete, ao golpe de Estado falhado que derrubaria Gorbatchev e a muitos outros episódios vergonhosos para qualquer regime ou nação e quase sempre sinónimos de totalitarismo ou de desprezo pela Democracia (Tianamen não desapareceu do mapa, pois não), o PCP pronunciou-se de novo em abono dos que entende por seus pares nisto da luta do proletariado.

Estas tiradas comunas constituem um dos melhores argumentos para eu jamais poder aproximar-me de um partido político que consegue vergar a moral e a ética em prol de uma coerência que tresanda a dogma e me faz lembrar os pretextos da santa Igreja para justificar (à época) a (nada) Santa Inquisição ou, nos tempos que correm, para defender coisas tão estúpidas como o pecado que o uso do preservativo constitui.

O paralelo está na forma como pilares de qualquer das duas organizações mundiais (católica e comunista) conseguem fazer escolhas entre os males menores que são o resultado último dos seus dislates e os males maiores, insuportáveis, que seriam a traição aos princípios (no caso da Igreja) ou aos amigos ou a ambos (no caso do PCP) e sua eventual repercussão negativa para a causa de que se arvoram.

 

Nem o comunista mais fanático pode negar que morrem pessoas na China por delito de opinião que se converte em subversão nas mentes doentias que reconhecem como legítimo o abuso do poder em nome de uma causa ou de uma pátria ou, no caso do PCP, da boa figura das suas escolhas inevitáveis enquanto modelos de sociedade a defender.

Venha o diabo e escolha, de entre os camaradas que os comunas portugas não permitem beliscados no estatuto de grandes nações onde se luta pelos interesses dos trabalhadores, contra o patronato e na defesa intransigente do fim da miséria e do estreitamento do leque salarial que nos tornará numa enorme e feliz cooperativa de gente tão solidária como as dos arquétipos católicos de fachada.

A miséria e a fome grassam na Coreia do Norte, é um facto incontestável, tal como o medo impera na China e o único mérito e a única forma de inteligência reconhecidos são os que melhor desenham os contornos da caricatura em que num e noutro país se tornou a Democracia que, até os comunistas lusos sabem, não sobrevive às mutilações sistemáticas na Liberdade de Expressão.

 

Eu ainda posso usufruir da minha, tal como o PCP quando abona o regime irmão mesmo que para isso precise de conspurcar a imagem do maior galardão a nível mundial e ignorar a similaridade da luta de Xiaobo e outros com a sua antes do 25 de Abril.

É imperdoável que pessoas capazes e inteligentes como muitas que conheço na área comunista aceitem sem protesto estas posições oficiais do seu partido como suas. Não acredito que não existam comunas capazes de distinguirem certo e errado ao ponto de aceitarem como sua a defesa de regimes assim, prepotentes, arrogantes, imperialistas, cruéis.

Nenhuma ideologia ou religião pode sobrepor-se ao valor de uma vida humana. Cada uma das vítimas dos regimes chinês e norte-coreano, tal como cada uma tombada pela SIDA por não querer ofender a Deus, são o resultado prático de erros primários de concepção das doutrinas e de trapaças intelectuais grosseiras para minimizar a ignomínia que de facto representam.

 

Reagir em defesa do regime chinês é assumir a cumplicidade por inerência de cada um dos crimes já consumados e de todos os que certamente ainda irão acontecer.

publicado por shark às 20:35 | linque da posta | sou todo ouvidos