VISTA DESAFOGADA

Existe uma fase da vida em que olhar para o futuro, a curto ou a longo prazo, é como olhar a vastidão de um horizonte imenso onde tudo (de bom) é possível acontecer.

Mas essa fase, ao contrário das expectativas, não dura para sempre. O passar dos anos, uma maravilha que nem sempre reconhecemos nessa qualidade, implica uma progressiva perda de visão que deriva de uma realidade tramada chamada envelhecimento e que só é tramada porque poucos sabem aceitá-la como parte do ciclo que nos compete cumprir e que devemos agradecer porque nem todos temos a sorte de a percorrer.

Essa perda de visão limita o alcance no tal horizonte imenso, obriga-nos a reduzir a fasquia na ambição para não a tornarmos numa fantasia impossível de concretizar e por isso talhada para se tornar numa permanente frustração.

E começa aí, quando não temos a coragem de utilizar os óculos ajustados à realidade que vivemos e nos revoltamos contra a falta de tempo ou de capacidade para cumprir objectivos adolescentes, o desperdício de uma regalia tão precária que justifica um olhar atento e entusiasmado para o presente que ontem não era mais do que um amanhã que ninguém nos poderia garantir.

É aí que começa a velhice azeda e resmungona, no culminar de um processo que começa precisamente na negação infantil do seu prenúncio.

 

Tempos atrás eu era o jovem no cimo da montanha, olhar assoberbado com mais paisagem do que conseguia abarcar. À vista larga de então contrapunha-se a falta da visão selectiva que só a maturidade tranquila (os tais óculos de que falava mais acima) nos confere.

Via tudo sem ver nada, sonhava acordado porque me era permitido deixar correr mesmo os sonhos sem pernas para andar, sem ter a noção das limitações que a erosão do tempo e da vida que nos dá o calo podem implicar.

Hoje sou o homem de meia idade sentado numa escarpa a meio do caminho para o topo onde tive a felicidade de deixar uma filha que olha agora o horizonte com a legítima sofreguidão que me compete moderar, a meio caminho do chão, se tudo correr pelo melhor, para conseguir ganhar a batalha contra a estupidez de deixar passar ao lado a hipótese de olhar a vida com maior detalhe, ao pormenor.

 

São vistas curtas as dos que envelhecem de forma precoce por se preocuparem mais com o menor alcance da visão do que com a oportunidade de a aproveitarem para, ao perto, observarem nas calmas e se deliciarem com pequenos nadas que a euforia adolescente dos primórdios nem se dignava reparar.

E eu espero, daqui a um ano, estar num ponto da montanha mais perto da terra firme onde o meu corpo enrugado do futuro poderá caminhar em segurança cada dia, sem ter que passar esse tempo a sós, um ponto onde consiga olhar para trás, para cima, e rever na tela tudo aquilo quanto me é dado a viver hoje e saber dar o valor ao privilégio que isso constituiu, renegando assim a velhice como uma espécie de cancro da felicidade e abraçando cada momento como um benefício dessa oferenda chamada existência que quanto maior melhor.

 

Espero, daqui a um ano, conseguir ver com a mesma clareza os detalhes de tudo aquilo que a minha vista alcançar, corrigida a miopia do desencanto com as lentes da lucidez.

Espero, daqui a um ano, continuar a ser feliz.

publicado por shark às 10:39 | linque da posta | sou todo ouvidos