JORNALISMO: QUEM PUBLICARÁ UM DIA A NOTÍCIA DO SEU FIM?

Já aqui expliquei algures porque entendo o Jornalismo como um vício vitalício e assumo a blogosfera como a minha metadona.

Isto não implica que tente sequer imitar um jornalista na minha actividade blogueira em part-time, refugiando-me no meu umbigo e nas impressões  subjectivas acerca do mundo que me rodeia.

E hoje, que fiquei a conhecer mais uma história sem final feliz por parte de quem tentou abraçar a carreira e desistiu, voltei a perceber porquê.

A história é banal e conta-se em poucas palavras.

Alguém estudou para ser jornalista, obteve uma licenciatura e reuniu coragem para enfrentar o estágio que, no jornalismo, é coisa pior do que a tropa.

Mas se na tropa se diz que um gajo se faz homem (e nos tempos modernos, mulher também), de um estágio no jornalismo português de hoje produzem-se apenas pessoas desencantadas ou alimárias conformadas. E explico porquê, no contexto da tal história que no fundo é a minha tirando as moscas.

 

Eu sou daqueles líricos que acreditam que um polícia deve ser sempre um profissional bem remunerado, precisamente para evitar as tentações que derivam de uma qualidade de vida menos boa e respectiva pressão. Maior lirismo é o de aplicar o mesmo raciocínio aos jornalistas, considerando a prática vigente na Imprensa desde há décadas.

A história de que tive conhecimento implica alguém que depois da Faculdade entrou directamente no estágio de uma publicação ligada, no caso concreto, à decoração mas que podia ser de outra área qualquer.

A realidade dos estagiários, dos aprendizes de jornalistas que (os que aguentam) depois se tornam nos profissionais que detêm o poder que se sabe num mundo onde a opinião pública se faz muito a partir do seu trabalho é feita de ordenados mínimos, de esmolas à peça e sempre de contratos a prazo que ainda enfatizam a fragilidade da sua condição diante das entidades patronais cuja independência se mede em euros e em influências que não se angariam sem troca de favores que podem ser os silêncios comprometedores para a dignidade da função dos escribas/escravos.

 

A protagonista da história que me contaram desistiu quando se sentiu abusada, quando percebeu que só os lorpas conseguem sair da cepa torta à custa de cedências miseráveis e de compromissos insuportáveis para qualquer pessoa que faça a mínima ideia do que está ali (num Órgão de Comunicação Social) a fazer.

Optou por prolongar o percurso académico para poder buscar uma carreira noutra área de actividade.

Nem sei se a pessoa em causa possuía o talento para a coisa, mas sei, pela coragem da sua deserção, que possui decerto a dignidade para nunca se deixar vender (a alma) pelo desespero de causa.

E ainda por cima barata, estupidamente barata em função do grau de apatia, de falta de amor próprio e de poder de encaixe para a ignomínia que exigem hoje a quem sonhe ser jornalista.

 

Eu abdiquei, apesar de ter feito uma perninha há poucos anos e de continuar refém desse vício que nos agarra, que se apodera de nós enquanto fantasiamos acerca da forma como é possível mudar o mundo com base numa coisa aparentemente simples mas rara, a verdade, dissecada sob pressupostos de isenção e de independência face a qualquer tipo de poder, nomeadamente o mais tenebroso.

O dinheiro, essa coisa pestilenta, corrói a melhor das boas intenções quando uma pessoa está dependente de criaturas poderosas, oportunistas e sem escrúpulos para poder sobreviver ou apenas singrar na carreira que acredita ser a de uma vida.

A maioria das publicações portuguesas vive à custa desse excesso de oferta no mercado dos escribas, explorando de forma ignóbil o esforço e destruindo de forma nojenta o sonho de quem tem o azar de embicar para ali, para a carreira que vista de fora é linda mas depois de algum tempo a constatar a prevalência dos asnos (os tais que em algum ponto do caminho decidiram virar a cara ao cocó, a maioria) e a penar sob as condições vergonhosas que lhes são propostas em troca de trabalho remunerado (emprego é outra coisa) se transforma numa abóbora.

 

Note-se que as mesmas publicações que exploram de forma indecente os estagiários e assim enchem as páginas pagas pela publicidade, cujas receitas enriquecem muita gente mas são sempre pretexto para os abusos como o que dá o tom a esta posta, são as mesmas que não se inibem de pagar pequenas fortunas a colunistas em voga para darem o ar de coisa séria com que endrominam o consumidor comum.

Ou seja, o oportunismo é descarado, a lei do mais forte impera e o Jornalismo a sério definha.

Não pode haver Jornalismo sério feito por jornalistas de brincar, por marionetas movidas pela ansiedade do recibo (verde) no final de cada mês e necessariamente à mercê dos contratadores (entidade patronal é outra coisa) e de quem lhes possa valer nas aflições que a vida sempre consegue tecer.

Em ambos os casos, sempre à custa da dignidade de quem cumpre uma função vital para o bom funcionamento de qualquer democracia digna desse nome e que deveria, por isso mesmo, ser poupada a outros filtros que não o do talento, o da incorruptibilidade, o do amor a uma causa que o Jornalismo representa e com o direito a orgulharem-se de serem as eleitas e os eleitos para um papel cuja nobreza se emporcalha todos os dias na leviandade de editores e na ameaça surda da substituição por outros menos capazes mas mais flexíveis nas articulações da coluna vertebral.

 

Em ambos os casos, à custa do fim anunciado da credibilidade, do rigor e mesmo do talento cujos filtros actuais se assemelham aos da contratação de estivadores e de apanhadores de azeitona de entre os magotes desesperados durante os dias da Grande Depressão.

publicado por shark às 14:18 | linque da posta | sou todo ouvidos