O CONTADOR DE HISTÓRIAS

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O velho TOM, um marujo britânico reformado, era o maior cromo da Costa da Caparica. Completamente senil, inventava histórias nas quais acreditava após dezenas de repetições.
A malta não o levava a mal, achava-lhe piada. Mesmo sabendo que as suas aventuras de embarcadiço, contadas com entusiasmo nas esplanadas junto à praia, não passavam de um embuste. Era sabido que, apesar de ter sido um membro orgulhoso da Royal Navy (facto de que muito de gabava), nunca tinha saído da doca seca apesar das fantasias marítimas que acalentara anos a fio.

Sempre com um gorro nojento na cabeça, para lhe poupar a copa desfolhada aos rigores do frio, o velho TOM deambulava pela avenida principal enquanto falava com os seus botões. Parecia que treinava as histórias para contar depois.
Era um homem cheio de imaginação. Nas suas palavras um verdadeiro machão. E culto, imenso, sempre artilhado com citações para impressionar os papalvos que lhe desconheciam o percurso de zé-ninguém.

E tudo corria bem ao ancião, até ao dia em que decidira embirrar com outro lobo-do-mar sem pachorra para a sua arrogância. Foi longe demais e o outro, bem informado, descobriu-lhe a careca perante uma plateia atenta às revelações coscuvilheiras.
Atrevido, o velho TOM expôs-se desnecessariamente a um vexame.
Nem as amigas do peito que o tentavam promover em vão, mesmo sem nada por onde pegar, conseguiram evitar o escândalo e as respectivas repercussões (ocorridas na sequência de um excesso do velhote que dera azo a um falatório que depressa chegou a ouvidos que ele preferiria evitar).

Arrependeu-se tarde demais por ter insistido na brincadeira. Exagerou. Ninguém o incomodara até ao dia em que apontara o dedo descarado a outra pessoa, em vez de manter uma prudente reserva quanto à identidade dos alvos da sua paródia infantil.
Estalou o verniz. E o seu enorme nariz, orgulhoso, passou a dar menos à costa.
Durante anos, o velho TOM desapareceu da circulação. Envergonhado pela revelação das mazelas que sempre existem na vida de qualquer pessoa, provocada apenas pela sua falta de sensatez.

O lamentável episódio acabaria por ser esquecido, mas nunca mais a credibilidade do marujo (que se pintava como personagem de um livro) voltaria ao normal. Ficou agarrado à imagem de velho maluco, fanfarrão e caduco. Hipotecou o respeito que não soubera acarinhar.

Vagueava junto ao mar onde nunca mergulhara, quando uma apoplexia o estendeu ao comprido no areal e o enfiaram num asilo onde acabaria os dias a debitar para si próprio um rosário de queixumes. Incontinente palrador, era o pesadelo da instituição.
Perdera a razão e ninguém o levava a sério.

Ainda hoje se ouvem do lado de fora do muro do jardim as suas lamentações berradas e as ameaças veladas de uma vingança que nunca poderá concretizar.

Tão distante do oceano como da lua, o velho insano já nem sai à rua. Atrofia aos poucos no isolamento, remetido ao esquecimento por quem, afinal, nunca dele se lembrou.
publicado por shark às 10:22 | linque da posta | sou todo ouvidos