TRANSIÇÕES

Sentou-se à beira de um precipício, de uma maneira que facilitasse o suplício da vertigem que se queria impor, talvez uma última viagem para um sítio que a fé pintava melhor, a hipótese radical de decidir o seu próprio final ignorando o pecado mortal subjacente a essa forma indecente de voar para a deserção.

 

Olhou em volta para se certificar da solidão que mais o serviria, a decisão que tomaria sem influências do exterior, sozinho naquele lugar inacessível a quem o pudesse dissuadir caso entendesse partir de repente, inclinando o corpo para a frente, a gravidade da situação, a vontade de contrariar o instinto de conservação que o fazia hesitar.

 

Enchia o peito de ar como se tentasse ganhar a coragem que sabia não passar de mais uma miragem sem nexo no horizonte da sua alucinação e acelerava ainda mais o coração que parecia querer reclamar o seu direito a participar no momento da votação, qualquer que fosse a opção tomada, a democracia de fachada à mercê da cabeça que arrastara tudo o resto até ali.

 

À beira de um precipício, ganhando o tempo necessário para o despertador tocar e assim o salvar, acordando-o para o pesadelo alternativo que, no seu entender demente, a realidade tinha sempre presente para lhe oferecer.

publicado por shark às 15:24 | linque da posta | sou todo ouvidos