EXIT

Saía todos os dias para avançar no caminho, para dar mais um passinho rumo à felicidade que entendia fazer parte da prosperidade que perseguia como um burro, a cenoura imaginária no carro de luxo, potente, que o podia abraçar de repente com braços feitos facas afiadas no final de curvas mal calculadas à velocidade da vida como a decidira viver.

Saía todos os dias para se convencer da vitória, essa estranha sede de uma glória traduzida num apartamento bem situado, num bairro endinheirado onde se sentia entre iguais, todos eles em busca de mais daquilo que os movia, a fortuna que se dizia ao alcance dos mais capazes de acreditar nessa realidade e de encontrarem sempre mais vontade de subir esses degraus que permitiam definir posições e hierarquias, as decisões que certamente tomarias, invejoso ou invejosa dessa vida cor de rosa que não poderias jamais conhecer por detrás do tapume que verás sempre por baixo, à distância, para lá do muro protector do condomínio privado onde o amor se vê quase sempre relegado para experimentar amanhã ou depois.

 

Saía todos os dias à pressa para alcançar outro triunfo, a contrapartida chamada sucesso como o via na casa de praia que construía aos poucos em nome de outrem para evitar um problema fiscal, já não via como um mal a trapaça que antes sentia como uma ameaça à sua integridade agora perdida, a dignidade oferecida em troca de um alegado prémio de consolação que se assumia a mais forte emoção possível de cada dia no meio do cansaço visível que lhe marcava as feições, mesmo quando alimentava as ilusões de que comprava afectos com os sinais exteriores que lhe permitiam vangloriar-se perante a família de nunca faltar com nada a quem quisesse pedir, gente infeliz e mimada, incapaz de subsistir pelos seus meios ou de lutar por algo mais do que um qualquer bem adicional, um prémio imediato pela sua contribuição na imprescindível manutenção das aparências.

 

Saía todos os dias e imaginava uma reforma dourada, uma vida bem terminada num paraíso de transição para o céu que acreditava merecer até ao preciso instante em que um imprevisto enfarte lhe reduziu a cinzas a ambição que alimentava quando lhe destruiu no coração o pouco que ainda lá restava.

publicado por shark às 18:50 | linque da posta | sou todo ouvidos