PAREDES MEIAS

O papel de parede florido começou a descolar, começou a descascar a fruta podre, estava por detrás uma parede esburacada pelo tempo e pelas infiltrações que a corroíam aos poucos e o papel, cheio de flores, conseguira até então esconder a quantidade tão imensa de humidade que se podia ali plantar um pequeno jardim.

 

Começou a perceber, por fim, a dimensão do equívoco quando do papel de parede florido já só restavam pequenos ramalhetes pendurados em pregos que antes haviam servido para as imagens entretanto amarelecidas de um tempo passado a fingir.

Só sobravam lembranças antigas de dias em que aquela casa sabia sorrir e as paredes pareciam canteiros e tudo era possível de ambicionar, um palácio até.

 

Canos ferrugentos à vista, como veias numa ferida aberta impossível de sarar. Aquela parede parecia possível reparar, mas não passariam de remendos que apenas adiariam, como o papel colado, adesivo, um final que não poderia ser feliz.

A parede degradada, apesar de disfarçada, não tinha salvação e agora a constatação era impossível de ignorar, o papel florido a destapar a gangrena interior e já jaziam murchas as suas flores aos pés da parede que cuspia agora aquela pele para que a deixassem morrer enfim.

 

Resistia a olhá-la assim, numa espécie de despedida, mas sabia que a vida não poderia continuar com a ferida a infectar e o tempo implacável a tornar cada vem mais inviável uma qualquer reparação, panaceia, parecia-lhe má ideia prolongar a vida daquela casa de uma forma artificial.

 

Acabaria afinal por montar uma tenda lá fora, incapaz de se afastar daquelas paredes que abraçara como refúgio e que justificavam um subterfúgio que o mantivesse por perto até que as ruínas desabassem sobre o seu sonho pueril e pusessem fim à esperança patética que alimentava no coração de que talvez ficando sozinhas aquelas paredes lograssem a sua regeneração.

Tags:
publicado por shark às 15:34 | linque da posta | sou todo ouvidos