POR MIM, ERA TUDO CORRIDO À POSTALADA

Saí da oficina descansado e avancei pela recta que me levava ao desvio para a auto-estrada onde iria estrear a máquina nova em folha. Só quando curvei pela primeira vez, já no acesso à A1, notei um comportamento algo instável do carro, parecia dançar em demasia, e encostei.

Estarreci, no momento em que percebi a origem do problema. Distraído com seja lá o que for, o mecânico responsável pela substituição dos pneus encaixara as rodas mas esquecera-se de apertá-las...

 

Muitas tragédias, senão a maioria, resultam de desconcentrações, de desrespeito por normas de segurança ou, por norma, de qualquer tipo de negligência grosseira.

Em Portugal, terra de bacanos, de desenrascados e de gente cheia de compreensão para com os lapsos que podem acontecer a qualquer um, os azares como os chamam multiplicam-se ao mesmo ritmo a que se somam os prejuízos resultantes da falta de zelo (e de brio) por parte da generalidade das pessoas.

E algumas dessas pessoas exercem funções que podem afectar ou colocar em perigo a própria vida dos outros quando mal desempenhadas.

 

A Comunicação Social alimenta-se da proliferação desse tipo de exemplos de uma forma de estar que é porreira mas só enquanto não dá bronca da grossa, situações como a dos criminosos que aproveitam goelas do sistema para praticarem crimes ainda mais hediondos, dos incêndios que se alimentam do mato por cortar, das crianças que morrem nas casas onde os pais as deixam sozinhas e fechadas dias a fio.

A dificuldade está na escolha, nesta panóplia de coitadinhos (as vítimas que tiveram o azar e os responsáveis que o provocaram sem querer) que são a face visível da tal postura do deixa andar que só por muito galo é que não sei o quê.

 

No caso concreto que descrevi no primeiro parágrafo desta seca que vos dou a ler, o não sei o quê podia ser voarem as rodas do carro a 120km por hora em plena auto-estrada. E isto se eu, um dos bacanos portugas que gostam de facilitar, me limitasse à velocidade que a Lei impõe como limite máximo. O mais certo era circular a uma velocidade mais do que suficiente para transformar o veículo numa espécie de míssil sem alvo determinado, somando a minha inconsciência de circular depressa demais à do fulano que se esqueceu desse detalhe de as rodas de um carro terem que ser apertadas sob pena de ganharem vida própria e ameaçarem as vidas alheias.

 

É difícil meter na cabeça da malta que temos mesmo que cumprir, no mínimo, as regras mais elementares que o bom senso aconselha. Quando denunciamos exibições grotescas de negligência ou mesmo de pura incompetência logo surge alguém que nos pinta como os maus da fita, os chibos, coitada da pessoa e tal que pode ter problemas sem necessidade alguma. E as visadas, mesmo confrontadas com a dimensão da sua asneira, resguardam-se nessa simpatia dos outros, espontânea, corporativa, perdoam-se a si mesmas, revoltam-se contra quem as expõe e seguem o seu caminho sem aprenderem qualquer lição, impunes para poderem repetir a façanha.

É assim que as coisas são e qualquer outro filme será sempre uma excepção à regra.

 

Já achei mais piada a essa característica que dizem ser nossa, farto que estou de pagar o preço e de ver o quanto pode sair caro a outros mais azarados, coitados e assim, de todo este arraial de inocentes da treta que são purgados das suas responsabilidades por um inquérito inconsequente, uma justiça benevolente e a habitual corrente solidária de quem não sentiu na pele as consequências da actuação do amigo ou colega ou simples conhecido de vista que pelo que fez ou deixou por fazer provocou algum desfecho trágico ou simplesmente dispendioso e, acima de tudo, desnecessário.

Acredito que quando alguém não possui a honra e a dignidade bastantes para chegar lá por si e assumir verdades e consequências a sociedade deve garantir que tal aconteça e só assim podemos funcionar como um colectivo em condições, onde não tenhamos que passar revista a tudo quanto confiamos a terceiros.

 

É que já basta termos que engolir os azares propriamente ditos, os tais que só podemos imputar uns ao acaso e outros a Deus, aceitando-os como fazendo parte dos riscos de uma existência normal.

Não faz sentido que ainda tenhamos que cruzar os braços, impotentes perante um mundo onde as culpas são cada vez maiores e as pessoas se revelam cada vez mais pequeninas.

Assim é normal que as primeiras acabem sempre por morrer solteiras...

publicado por shark às 11:24 | linque da posta