A POSTA NO MEIO TERMO

É difícil reprimir o apelo instintivo para o endurecimento do combate ao crime, nomeadamente no agravamento das penas previstas para os crimes violentos (ou pelo menos na aplicação das mesmas na sua totalidade, sem mil pretextos para a respectiva redução) e no aumento do contingente policial presente nas ruas.

Argumentar a favor desse caminho é tão simples quanto encurralar potenciais interlocutores com a pergunta da praxe nestas coisas da justiça popular de café: e se acontecesse a alguém muito próximo de ti?

 

É difícil responder a uma pergunta assim sem enveredar pela radicalização das posições, por muita fé que se deposite no conceito de reinserção social cujos resultados, se existirem, não possuem a projecção mediática habitualmente impulsionada pelos políticos quando as coisas correm bem e o dinheiro dos nossos impostos não é pura e simplesmente esbanjado com a melhor das intenções.

A dimensão desse encurralar teórico, o engolir em seco de quem nem consegue imaginar os seus mais próximos na pele das vítimas daqueles a quem o sistema judicial parece dar vida fácil nestes dias, é proporcional à permeabilidade aos discursos mais extremistas e estes, em última análise, acabam por constituir uma ameaça ainda maior aos direitos que pretendemos salvaguardados e, paradoxalmente, à própria segurança que gostaríamos reforçada pela força da Lei e dos meios ao seu dispor para a fazer cumprir. Sobretudo no que concerne à punição.

 

A punição, essa velha tradição que conduzia os nossos pais à ordem para bater dada nas escolas aos professores (e muitos exerciam esse poder mesmo sem licença), constitui por isso o santo graal de qualquer população amedrontada por meia dúzia de crimes mais hediondos ou pelo efectivo aumento da criminalidade que se vê retratado nas parangonas dos jornais.

Mas aí deitamos um olho ao Tio Sam, esse melhor que todos em (quase) tudo e arredores, cujo sistema jurídico até possui a pena capital ao seu dispor e da dimensão e rigor do policiamento ninguém duvida e as pessoas desse american dream continuam armadas até aos dentes e com as casas transformadas em fortalezas, a maioria sem vontade alguma de saírem à rua a horas mais avançadas.

 

Postas as coisas nestes termos, é fácil de perceber que só o equilíbrio que a inteligência e o bom senso proporcionam poderão oferecer-nos uma solução para o problema.

Ou seja, nem o facilitismo, a brandura de processos normalmente atribuídos à forma de estar da Esquerda servem uma sociedade onde a criminalidade tende a tornar-se mais cruel e assustadora, nem os excessos em matéria de policiamento (sim, a privacidade é a menor das perdas associadas) ou de duração das penas (na configuração actual do sistema prisional seria o caos instalado de forma ingénua por via legislativa) garantem uma resolução do problema e até podem dar origem a outros ainda mais difíceis de controlar depois de criados (exemplos lá fora não faltam, recorde-se a França).

 

E este é apenas um dos exemplos que ilustra como existem questões tão sérias e fundamentais que jamais poderão ser lidadas com base em binómios ou dicotomias que possam arrastá-las para jogos de poder e outras teimosias.

publicado por shark às 00:59 | linque da posta | sou todo ouvidos