UMA SECA DE POSTA

Como a maioria das pessoas, embora a maioria dessas negue a pés juntos as suas, tenho características que não posso contornar na sua condição de defeitos. E não, não é feitio. É defeito mesmo.

 

Sou desequilibrado em matéria de desconfiança. Por muitas atenuantes que consiga reunir enumerando vários episódios deploráveis da minha (co)existência com os outros, é impossível não reconhecer esse mecanismo descontrolado a quase todo o tempo na minha forma de analisar quem me rodeia.

Sim, embora não tenha medo de levar uma tareia de algum que não me ature armado em campeão receio imenso a traição da minha confiança por parte das (muito) poucas pessoas a quem confio esse último bastião da minha fé nos outros.

E isso, levado ao extremo do que quase me vejo obrigado a definir como mania da perseguição, paranóia, leva-me até a ser eu quem trai a confiança alheia, sob o automatismo do tal mecanismo de protecção que a minha mente cansada desenvolveu.

A única coisa que me resta para não perder a dignidade quando me vejo confrontado com as manifestações excessivas dessa característica é isto mesmo: assumi-la. Ou seja, tenho vergonha na cara o bastante para admitir seja perante quem for (este espaço é público e eu dou a cara) que tenho este problema. Sou desconfiado, demasiado, e aí reside boa parte da minha dificuldade em manter relações saudáveis com as pessoas. A outra parte consiste na merda que os outros também são capazes de fazer.

 

Quando incorro nos tais episódios de desconfiança excessiva existem sempre duas hipóteses quando me proponho apurar a verdade dos factos. Ou estou errado nas minhas suspeitas e as vítimas do meu comportamento têm motivos sérios para me virarem as costas, ou estou certo, apesar de o método de “investigação” não ser sempre o mais decente, e nesse caso existem outras duas opções. Ou a pessoa assume a sua falha como eu assumo a minha e a força dos laços na ligação encarrega-se de injectar a necessária dose de tolerância, ou a pessoa fica mais preocupada com o facto de se ver desmascarada e com a necessidade de apagar vestígios.

E nesse caso deixa de haver muito por onde pegar na mesma...

 

Só mesmo quem me ama consegue aturar-me, ao contrário do que se possa presumir por qualquer imagem involuntariamente distorcida de mim que eu tenha vendido aqui. Mesmo a um amigo pode aplicar-se a verdade acima e não me faltam dissidências para o comprovar.

Não sou o calimero nem o patinho feio. Podia ser um canalha, um parasita, um imbecil. Assumiria qualquer dessas características, se a identificasse como tal. Mas não, sou desconfiado e submeto quem se aproxima a um escrutínio extenuante. E depois exijo transparência total, oferecendo tolerância na proporção em troca. Isso mais o mesmo respeito pelo pressuposto em causa e o privilégio valioso da confiança recíproca.

 

É impressionante como nunca consegui ao longo de uma vida, salvo raríssimas excepções, encontrar quem sentisse que valia a pena, quem gostasse de mim o bastante para arriscar na luta por essa utopia.

publicado por shark às 21:12 | linque da posta