A POSTA QUE FAÇO

Há pessoas que se arrependem imenso daquilo que fazem de errado.

Eu arrependo-me mais do erro de deixar por fazer aquilo que sinto acertado, nem que constate depois ter sido mal pensada a acção. Ajo muito em função de impulsos do momento, irracionais, confiando em simultâneo no discernimento que me impeça de dar tiros nos pés e na capacidade de desenrasque para dar a volta a alguma consequência foleira de uma iniciativa desastrada.

 

É complicado gerir uma existência assim, ao sabor daquilo que a emoção imediata e o instinto determinam. Claro que existe sempre algum factor de ponderação, nem que seja pela avaliação instantânea dos riscos que qualquer atitude menos reflectida possa implicar.

São os riscos que precisamos correr quando optamos por interferir directamente com a vida nas suas escolhas e queremos chamá-las nossas também.

Às vezes dá bronca, na maioria. E noutras até resulta num golpe de génio que nos abre as portas a generosos e bem passados pedaços da existência efémera que nos é concedida.

 

Esse equilíbrio entre o que podemos e/ou devemos fazer, sobretudo na relação com as realidades que nos sejam externas, pessoas ou organizações, acaba por influenciar sobremaneira o percurso que nos compete percorrer.

Pessoas que optam pela prudência, pela defesa, pelo medo, passam ao lado de inúmeras boas oportunidades de entre as poucas que a vida nos oferece. Têm que viver nessa inquietação permanente e definitiva: e se eu tivesse mandado a cautela às urtigas, o que iria acontecer?

Eu prefiro viver com as repercussões dos desastres que possa provocar, prefiro morrer a tentar do que cruzar os braços a ver no que dá.

Ao menos sei sempre a resposta, não fico na dúvida que corrói quando percebemos de repente que o timing certo passou e tudo se transformou em mais uma consequência do querer fazer tarde demais.

 

No fundo são estas as escassas opções que nos podemos permitir no que concerne ao que o destino nos reserva e impõe, mesmo por via de entre essas decisões poderem existir algumas particularmente desastradas.

Sim, é uma gaita, espalhei-me ao comprido e agora tenho que me levantar outra vez, sacudir o pó e tentar reparar os danos, nomeadamente a dignidade que possa sair ferida.

Antes isso do que a alternativa amorfa, silenciosa, dos que vêem acontecer a vida dos outros como a sua, na qualidade de meros espectadores de uma realidade moldada por uma dinâmica que nos sentimos incapazes de contrariar.

 

Não quero envelhecer encarquilhado na mente também, não quero (sobre)viver junto a um lago tranquilo onde possa em segurança molhar os pés. Prefiro aprender a nadar e de vez em quando arriscar a fúria das ondas num dia menos bom, sobretudo no que respeita à minha relação com os outros e com a mais valia das interacções.

 

E esses outros são cada vez mais os poucos que me valem a pena este ou qualquer outro tipo de cogitações.

publicado por shark às 12:06 | linque da posta | sou todo ouvidos