A POSTA QUE NÃO PAPA GRUPOS

Digamos que nunca fui um entusiasta das visitas papais. Mas nesta altura, tendo em conta o clima instalado em torno da Igreja Católica e nomeadamente na figura de Sua Santidade e gente próxima, ainda menos me agrada o alarido que já está a assentar arrais. Contudo, a ideia peregrina (muito a propósito) de inventar feriados numa época de crise com o pretexto da vinda de Bento XVI constitui sem dúvida o maior transtorno que esta visita inoportuna me provoca.

 

É difícil de entender que um Estado laico faça parar o país em função da visita oficial de qualquer líder religioso. É incompreensível que um Governo a braços com uma situação económica melindrosa diminua artificialmente a produtividade do país por sua iniciativa. É imperdoável que o mesmo Primeiro-Ministro que se recusou a receber o Dalai Lama preste agora vassalagem excessiva ao Chefe de Estado do Vaticano.

Ou seja, esta iniciativa palerma não tem ponta por onde se pegue e conseguiu o prodígio de reunir no coro de protestos os sindicatos do trabalhadores e as associações patronais (o que diz bem do desacerto absoluto da decisão em causa).

 

Nada a obstar quanto ao empenho de qualquer Governo no sentido de conferir à visita papal a dignidade e a importância de que esta se reveste por inerência, mesmo que essa seja forjada com base numa generosa percentagem de fiéis à força que, como eu, não impuseram aos filhos a mesma estatística que o baptismo inventa.

A visita de um Papa é sempre motivo, em qualquer nação, de honras de Estado e de enorme projecção mediática.

Todavia, conceder tolerância de ponto com base em tal pretexto é algo que julgo nem nas Filipinas ser razoável.

 

O presente envenenado que o Governo ofereceu à Igreja com este acto de fé na desmobilização da fatia mais conservadora do eleitorado no seu potencial hostil pode abrir caminho a diversas revelações.

Se a primeira é a possibilidade (sempre de considerar) de que a ponte criada arraste as multidões para o litoral, a segunda é a garantia de que o prejuízo financeiro para o país em consequência desta benesse cristã irá provocar nos agnósticos que habitualmente nem ligam a estas coisas uma vontade enorme e sem precedentes de ver o Papa.

 

Pelas costas.

publicado por shark às 09:47 | linque da posta | sou todo ouvidos