(MUR)CONTAR A VIDA

"Até ao fim", deveria ter escrito. Porque o meu Velho só deixou de assim me exortar à leitura quando já não desdobrava o jornal que minha Mãe religiosamente colocava a seu lado todas as manhãs.

 

E a partir desse momento, testemunha que sou do brilho e eterna curiosidade da sua inteligência, seria de lamentável mau gosto dizê-lo vivo. A ninguém ocorre chamar ainda navio aos destroços que salpicam as águas depois do naufrágio.

 

Júlio Machado Vaz, in Murcon

 

 

Em boa verdade não me assiste o direito de pegar neste trecho que prendeu a minha atenção e dissecá-lo à fraca luz de quem caminha sobre os rastos de outros, fora do contexto e sem fazer ideia das emoções contidas na experiência que este nosso colega assim resumiu. E a minha falta de legitimidade passa por me soar oportunista (e provavelmente descabido) atribuir-lhe um significado que me permita defender a eutanásia como opção, por perceber a minha falta de conhecimento de causa para melhor entender o que lhe motivou uma tirada (aparentemente) tão pragmática que até a sentimos como um piparote na testa a ver se acordamos para a realidade como ela é e, acima de tudo, porque nestas coisas de ser filho jamais poderei servir de referência a mim próprio ou aos outros para opinar acerca dessa condição seja a quem for.

Ainda assim, fiquei impressionado com a quantidade de coisas importantes que o ponto de partida acima nos permite pensar (e sentir) ou mesmo debater. Por isso mesmo partilho convosco o trecho do JMV, até porque não é fácil encontrar na blogosfera destes dias material que justifique qualquer tipo de recomendação.

publicado por shark às 17:25 | linque da posta | sou todo ouvidos