SEGUNDA ESCOLHA

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Aquele indivíduo metia dó. Via-se encurralado no caminho emocional das outras pessoas e sempre se descobria como uma segunda escolha, uma alternativa aos ideais românticos de quem o abraçava. Uma panaceia.
Aos poucos definhava nessa certeza que a vida lhe dava, de surpresa, nas mais variadas formas. E eu assistia à sua morte em vida, impotente, percebia a dimensão do seu desgosto e a progressiva perda da sua fé, mais em si do que nas outras pessoas.

Ele era um homem que passava a vida a perdoar, deixava-se enganar de propósito para merecer a caridade do amor de alguém. Alimentava ilusões que depois se desfaziam como flores secas e murchas na palma da sua mão. E ainda arranjava maneira de ficar mal visto com essa constatação. Nem lhe perdoavam as conclusões óbvias perante factos impossíveis de desmentir. Preferiam ferir a sua sensibilidade, insultando-lhe a inteligência.

E ele tinha consciência do seu papel de actor secundário na vida das protagonistas de cada filme em que contracenava como palhaço pobre, pobre coitado que apenas colmatava as lacunas como uma simples peça de substituição. Perdia a razão, ou tiravam-lha, sempre que se deixava convencer pelas evidências. Não lhe perdoavam um beliscão na realidade alternativa de cinema mudo que lhe cabia interpretar. Apenas lhe restava sonhar, enquanto aguardava que outros lhe assumissem a função. Metia dó.

Tentei deitar-lhe a mão, enchi-o de esperança. Mas de nada valeu. No seu horizonte adensava o breu e acumulavam-se os episódios que o humilhavam, as conclusões que lhe rejeitavam com base em desculpas sem nexo, esfarrapadas. Eram tantas as evidências que ele nem podia alimentar um sonho em condições, mesmo uma pequena ilusão, de se ver titular na equipa ganhadora em vez de mero suplente num jogo para empatar a solidão.
Nem conseguiam enganá-lo, ocultar-lhe os sinais.

Um dia ele desapareceu. Da minha vida como das de outras pessoas, nem sei se morreu. Por dentro, aposto que assim foi. Ouvi-lhe a amargura em tom de despedida, quando me confessou, cabisbaixo, a sua desistência dos caminhos do amor. O fim de uma carreira menor, por sua iniciativa, antes que ficassem preenchidos os lugares que ocupava de forma indevida. Sabia-se incapaz de competir com o estatuto e o comportamento ideal que outros, os eleitos, assumiam com a naturalidade dos verdadeiros ganhadores.

Ele acabou a perder, vexado.
E carregou para outro lado as mágoas que a vida lhe deu a provar.
publicado por shark às 12:44 | linque da posta | sou todo ouvidos