ALMA DE GAZELA

Sentindo-se cativa, a gazela selvagem começou a definhar e nada parecia resultar no sentido de lhe devolver a energia que o seu tratador bem sabia ser maior quando, num tempo anterior, ela corria à solta pela savana e nada a abrandava, nenhum leão a caçava por quão perto chegasse da corredora.


Prisioneira por distracção num breve momento de hesitação, tentava nem olhar para os grupos a passar lá fora, para lá da cerca que a separava da vida como a conheceu.
Olhava para o céu e parecia que voava por instantes, mas depois ficava como pouco antes. Prostrada num canto sem reagir, frustrada por não sair daquela prisão que a limitava no desejo que outrora a motivava para correr.

O tratador, cada vez mais afeiçoado ao seu espécime capturado por mero acaso que a sorte lhe concedeu, olhava igualmente o céu e interrogava a consciência por não possuir a sapiência suficiente para lhe dar a volta e incentivá-la a sentir-se solta o bastante naquele campo imenso que colocara ao seu dispor. Mas ela sabia muito maior o lado de fora e a sua alma corredora não suportava aquela condição que parecia afectar-lhe o coração em algum ponto da cabeça, cada vez mais tensa pela necessidade indomável de espernear.

 

Sentia a falta de contactar com a sua espécie, de poder vaguear em território de predadores em busca da adrenalina que lhe faltava agora e isso atrofiava a sua vontade de correr.
Parecia desfalecer quando tentava uma curta caminhada, o tratador com uma esperança renovada que acabava por ficar pelo caminho da gazela até à porta ou mesmo a uma janela de onde pudesse ver e sentir o sol.
Tinha dias, por alguns instantes, em que quase conseguia sentir-se como dantes mas depressa desistia do esforço em vão. Na cabeça ou no coração algo a impedia de recriar a sensação cuja ausência sentia como uma saudade mas na dura realidade esse esforço que a consumia não bastava para inverter o processo a decorrer.

 

Era ingrata a missão do tratador cuja ilusão de guardar só para si aquele magnífico exemplar igualmente sucumbia aos poucos à verdade diante do seu olhar. Tudo fazia para rejeitar o impulso de abrir o portão e confiar à gazela a decisão de ficar onde fome jamais passaria e nenhum predador a atingiria como as cicatrizes na pele provavam ter sido sua provação.
Contudo, a sua lucidez não lhe permitia ignorar que desfez uma força que tanto admirava e em cativeiro definhava e o seu peito batia descompassado perante o ar desconsolado da sua refém.


Já nem sabia se fizera mal ou bem quando a salvara, sonhador, com a sua habilidade de tratador, de um destino que julgava pior se o caminho anterior a conduzisse a alguma armadilha das que a vida coloca.

Um dia decidiu e o portão finalmente abriu para que a gazela escolhesse a opção que melhor lhe serviria.
Prendeu os olhos, como nunca fazia, num ponto fixo do horizonte e tentou fingir-se ausente para não a perturbar e para de alguma forma lhe permitir quebrar quaisquer laços que a amarrassem ao lugar onde cada vez parecia menos pertencer.
Recordou-a em liberdade, alegre, sempre a correr.

 

E deixou-se ficar à espera, imóvel, até o sol desaparecer por completo no céu, ansioso por encontrá-la ali dentro enquanto voltou, sem pressas, a fechar o portão.

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publicado por shark às 23:28 | linque da posta | sou todo ouvidos