CLARO QUE ISTO SÃO SÓ COISAS QUE OUÇO DIZER...

Um dos riscos corridos na relação com os outros por parte de quem assume às claras as suas características menos apetecíveis é a colagem a comportamentos associados a esses traços de carácter.
Ou seja, depois de assumidos os defeitos ou meros tiques de reacção o facto de poderem rotular atitudes à luz dos pressupostos cristalizados permite-lhes fugir às suas culpas no cartório e torna-se para os outros uma tentação irresistível.

 

Sim, a frontalidade tem um preço. Aliás, tem vários.
Na interacção entre pessoas complica mais do que ajuda, pelo menos na perspectiva de quem abraça essa forma de ser e de estar. Se por um lado ser frontal poupa uma série de falsas expectativas e desilusões a terceiros, para além de (ainda) ser considerado uma virtude, isso não implica que não se possa tornar num obstáculo sério quando, por exemplo, uma pessoa frontal se vê confrontada com um conflito de interesses qualquer ou apenas com a necessidade de reagir a algo que sente como uma ofensa ou uma desconsideração.
É que é fácil para quem lida com a frontalidade utilizar essa clareza para conotar todo o tipo de reacção para si desfavorável com simples manifestações de mau feitio assumido, abrindo as portas ao paternalismo confortável que descarta as suas falhas e omissões.
É o chamado barulho das luzes, sempre tão a jeito para desviar a atenção do fulcro da questão e aliviar (para os ombros sinceros mas desguarnecidos dos outros) as cargas negativas da conduta de cada um/a...

 

Se sinceridade total é uma flagrante utopia, a frontalidade é uma faca de dois gumes porque coloca quem a usa à mercê das reacções instintivas de quem se sente de alguma forma posto em causa e esses instintos, na maioria dos casos e mesmo sem plena consciência desse facto, podem abranger uma postura cobarde ou apenas hipócrita.
E é aqui que entra um dos tais preços a pagar pela frontalidade: raramente se tem a razão numa disputa, precisamente porque os/as oponentes refugiam a argumentação nos comportamentos “habituais” e nem tentam sequer medir as suas responsabilidades no sucedido. Se a pessoa frontal ou espontânea reage de forma hostil ou exibe o seu desagrado perante algo fica garantida a sua culpa no topo de qualquer explicação eventualmente menos favorável a quem se sente o alvo dessa reacção.
É o chamado sacudir a água do capote, relegando para segundo plano o que verdadeiramente está em causa e centrando a atenção na forte possibilidade de se tratar de uma birra do outro, de um desabafo, de uma consequência natural da sua tendência para um aparente exacerbar das reacções.

 

Estas realidades constituem um golpe de misericórdia no que resta de honestidade nas relações entre as pessoas. Cada vez mais individualistas e obrigados a preservar-nos das vantagens competitivas de quem opta pelo cinismo, pelo ocultar das emoções e dos defeitos, pelo verniz com que se cobrem as pessoas que preferem ficar sempre bem na fotografia, acabamos todos por deixar cair aos poucos a vontade de sermos nós próprios e camuflamos sob o sorriso de circunstância ou a indiferença que um encolher de ombros traduz todas as reacções que nos definem mas, em simultâneo, nos tornam vulneráveis a injustiças várias, a falsos pressupostos constantes e, em última análise e caso enveredemos pela insistência no que sentimos ser nosso legítimo direito, a fenómenos de progressiva rejeição.

 

E esse é um tiro certeiro no mesmo pé onde assentará no futuro a inevitável solidão.

publicado por shark às 09:59 | linque da posta | sou todo ouvidos