É UM BURAQUINHO SITUADO POUCO ACIMA DO PÚBIS...

Sou um gajo difícil, impossível para a maioria. É mais uma questão de mau feitio do que de mau fundo, como prefiro acreditar. Mas torna complicada a tarefa de quem calhe gostar de mim e não cuide de manter uma prudente distância.

Nada disto me envergonha ou intimida ou seja o que for para lá do desconforto pontual que me provocam as desistências. E eu somo imensas, como qualquer gajo difícil, embora tenha a certeza de que algo de positivo dei a cada pessoa que embicou para aqui.


Tenho alguns tiques de menino mimado, algumas convicções demasiado arreigadas e, sobretudo, exijo demasiado dos outros. E a exigência, disparatada na dimensão mas justificada enquanto opção, é directamente proporcional à proximidade que me concedam.

Algumas dessas merdinhas, como as chamo, estão na origem da maioria das tais desistências. A meu ver é simples: só mesmo gostando muito nos predispomos a aturar alguém. É assim nos dias que correm e a vida que levamos acaba por nos dar cabo da paciência para levarmos com as peculiaridades de outrem.
E quando gostamos a sério aprendemos a lidar com esses pequenos quês que acabam por definir a personalidade e a conduta de cada pessoa. Coisas boas e coisas más, sempre na perspectiva de quem as avalia e, lá está, com a carga de subjectividade que as emoções mais fortes acabam por impor e assim se adicionam os filtros que nos permitem tolerar as diferenças (ou as parecenças) que nos irritam ou incomodam.

 

Eu gosto que quem gosta de mim me faça sentir no centro da sua atenção, nem que por uns minutos ao dia. E sou muito cioso desse protagonismo que sei não poder “exigir” a pessoas que não me sejam próximas, tal como entendo que os alvos de tal exigência se saturem de fingir um interesse nas coisas que valorizo que raramente consigo despertar por muito tempo junto de alguém.
A isso somam-se as minhas reacções intempestivas, capazes de deitar por terra qualquer hipótese de reconciliação. Ladro alto e ferro o dente sem morder. Mas nunca escondo o que me vai na alma, algo com que poucas pessoas conseguem ou querem lidar. A malta prefere passar o tempo a brincar, a fazer coisas giras e divertidas, em busca da adrenalina que eu suscito tanto como um caracol. Preferem fazer de conta, ignorar ou mesmo atacar, do que enfrentarem de forma frontal as suas fraquezas ou as razões dos outros.

 

Eu sou assim, difícil. Quase impossível. E estranhamente não me sinto particularmente incomodado com isso, até pelo que os factos da minha vida comprovam. Sou assim, como qualquer pessoa o é. Somos o que somos e não vale a pena pintar a manta, retocar o verniz. E com os estragos que a vida provoca, estamos cada vez menos disponíveis para os outros, para o outro. Acabamos centrados no nosso umbigo que achamos sempre ser o mais importante a salvar em qualquer derrocada. Alteramos os factos, se necessário, para convivermos melhor com a consciência de tudo o que deitámos a perder ou deixámos pura e simplesmente cair por não valer a pena.

 

Somos assim, a maioria, e ninguém tem que se queixar pois quem gosta fica e empenha-se e quem não gosta tem sempre o caminho escancarado.

publicado por shark às 00:01 | linque da posta | sou todo ouvidos