NOS FINS COMO NOS MEIOS

Tempos atrás fiz parte de um projecto colectivo da blogosfera que acabou mal. Aliás, acabando só podia ser mal tendo em conta aquilo a que se propunha.
Ao longo do processo de organização das ideias que levariam à concretização da coisa foram trocadas centenas de emails entre o grupo que dava corpo ao projecto, sendo óbvio que no teor dessas mensagens privadas (que o são) e, por inerência, com destinatários bem definidos e só esses seria fácil encontrar o porquê do fracasso do tal projecto bem intencionado que entretanto morreu à míngua de gente capaz de o ressuscitar. Eu incluído e acima de todos.

 

Claro que vivo com o peso dessa derrota pessoal e colectiva que me incomoda, pelo que representou de auspicioso e agora representa em sentido oposto. E seria, se eu alinhasse pela bitola de quem escreveu e de quem entendeu publicar a peça de primeira página do “i” relativa a um autor anónimo do Jumento, uma tentação limpar a face divulgando as mensagens privadas que pudessem provar-me certo nas minhas razões.
Seria errado e não há volta a dar. Quaisquer que fossem os meus objectivos ou razões, nada justificaria tal comportamento. Por constituir uma violação flagrante de princípios dos quais não estou disposto a abdicar.
E não se presuma alguma espécie de superioridade moral intrínseca da minha parte no parágrafo acima, pois isso seria retirar a questão do seu cerne: o senso comum e uma educação (e um carácter) elementar bastam para dissuadir os mais arrojados na novel arte da mediocratização global.

 

Na verdade, existem pressupostos sem os quais acabará por tornar-se impossível a troca de diálogo entre as pessoas. Um deles é o da confiança que nos merecem os interlocutores.
Claro sempre existiram os bufos, os chibos, os queixinhas e os cuscos capazes de meterem a boca no trombone e levarem a cabo inconfidências. Sempre existiram. Mas não passam a ser politicamente correctos só porque entretanto se multiplicaram ao ponto de quase fazerem parecer corajoso um acto que tresanda a cobardia, para além de constituir um rude golpe no tal pressuposto sem o qual um blogue colectivo, por exemplo, se torna inviável ou apenas intragável pela ausência de ligação entre os colaboradores desse trabalho.

 

aberrações estatísticas e analogia no mundo animal


Emails, apesar da sua plataforma electrónica, são como cartas envelopadas. Exactamente como os blogues são jornais de parede em formato html. Na essência, na utilidade e, lá está, no pressuposto da confiança que nos permite presumir a confidencialidade. A do anonimato também.

Seria ingrato se afirmasse que possuo razões de queixa nessa matéria, sendo até surpreendido pelo respeito aos tais princípios que todos conhecemos de ginjeira (mesmo aqueles que os violam) por parte de quem com ou sem razão me hostilizou no passado blogueiro e pessoal de que nem sempre me orgulho.


Ou seja, os Carlos Santos da blogosfera ainda constituem, acredito, uma minoria. E os pêpêémes ainda são mais óbvios na condição de meras aberrações estatísticas expressas à direita da vírgula apenas por uma questão de rigor matemático.
O problema é que basta um cãozito mais colérico ladrar com insistência no meio do silêncio do lugar e é como se ladrassem todos os canídeos das redondezas (está bem, ladram sempre mais uns quantos) e às tantas qualquer cão passa a ser visto como parte do problema sonoro da vizinhança.
E não me sirvo dos cães (de que tanto gosto) como exemplo para os conotar de alguma forma com as duas pessoas atrás referidas, mas apenas para frisar que um mau exemplo (ou dois) não basta para generalizar comportamentos ao ponto de os tornar recomendáveis. Essa democracia não funciona.

 

Tudo isto para manifestar a minha estupefacção pelo desplante com que de repente alguém passou a achar correcto, recomendável ou apenas inteligente e oportuno fazer uma manchete como a do “i” à boleia de uma corrente de ar fétido que agita o lodaçal dos que já perceberam que não chegam lá pelas vias ao dispor (eleições, essa eterna maçada...) e deixam o desespero de causa tomar conta da sua.

 

E essa está à vista. Nos fins como nos meios.

 

(Nota: se quiserem ficar mais a par dos acontecimentos recomendo-vos ESTE ponto de partida.)

publicado por shark às 00:12 | linque da posta | sou todo ouvidos