A POSTA QUE POR ESTE ANDAR ACABARÃO AMORDAÇADOS. OU PIOR.

Acabo de ouvir uma intervenção do jornalista Pedro Beça Múrias, despedido pela Media Capital enquanto estava de baixa para lutar contra um cancro.
Da conversa dele com o Mário Crespo, na SIC Notícias, retive (para lá do estofo de que o homem é feito) a noção clara do quanto os jornalistas enquanto classe estão à mercê dos caprichos de todos os poderes, com o do dinheiro à cabeça.

 

É frustrante para mim, que andei uns anos no ofício, ouvir as histórias dos jovens que trabalham por tuta e meia para poderem entrar na profissão (ao ponto de acabarem por desistir da carreira, quando já não aguentam mais trabalhar para aquecer), a recibos verdes ou nem isso, vendendo as suas palavras e o seu esforço por um preço miserável.
Já acontecia no tempo em que vivi a pele do estagiário, e já nesse tempo o sindicato era um espaço com malta porreira mas sem grande capacidade de intervenção, mas é óbvio que entretanto, com o advento dos gigantes da Comunicação Social (como o que despediu o Pedro mais uns quantos), a coisa piorou a olhos vistos.

 

É fácil, mesmo de fora, perceber até que ponto os jornalistas são reféns dos patrões, dos poderosos e das próprias consciências também. Nenhum jornalista digno desse nome consegue pactuar em silêncio com as diversas pressões a que se vêem submetidos, mesmo quando a mais óbvia é a das contas para pagar, e por isso mesmo presumo que muitos engolem em seco e ficam com as palavras entaladas na garganta perante a fragilidade da sua condição.
Acredito tanto em Jornalismo isento e independente nestas circunstâncias como na aparição de Fátima. Mas no primeiro dos casos sou menos agnóstico e mais ateu.

 

Com o poder político cada vez mais descaradamente ligado ao poder financeiro, com o poder judicial cada vez mais questionado e publicamente embaraçado pelos casos que a Imprensa vai revelando, os pilares da democracia sofrem um processo de erosão e depois, em teoria, tudo assenta cada vez mais sobre a liberdade de expressão e a verdade que os jornalistas (pessoas como nós, com uma vida para gerir) consigam divulgar.
A importância do Jornalismo sério para assegurar o bom funcionamento das instituições dispara quando nos confrontamos com cenários como o que descrevo acima.


É disso que estou a falar quando descrevo acima a situação paupérrima da classe de profissionais de quem dependemos sobremaneira para não nos comerem por parvos e desvirtuarem as regras do jogo democrático.

 

É coisa séria. Mas mesmo perante tamanha ameaça fico sempre com a sensação de que só uma confrangedora minoria parece de facto preocupada com este estado de coisas.

publicado por shark às 22:23 | linque da posta | sou todo ouvidos