A VIDA QUE NINGUÉM DEVERIA PODER APAGAR

 

A recente desactivação de mais um daqueles sistemas da moda tempos atrás, o Haloscan - se a memória não me falha, recupera uma questão blogueira que já abordei tempos atrás e continua pertinente nesta ocasião.

Um blogue é, para mim, um registo de vidas. E esse registo até passa mais pelas caixas de comentários do que pelos posts que lhes servem de pretexto, pelo que o desaparecimento do seu conteúdo constitui uma perda irreparável de emoções, de ideias, de tiradas brilhantes de pessoas que no instante em que comentaram estiveram, de facto, ali.

 

Assim sendo, é fácil de adivinhar o meu desconforto pela frieza com que se permite a obliteração definitiva (e por vezes voluntária por parte de gente que bloga mas não entende o alcance da coisa) de conteúdos que em muitos casos são bem mais valiosos do que os expressos em forma de post.

Considero uma afronta ao próprio espírito da coisa, o cariz volátil dos registos de existência que um blogue consegue acumular. Esses registos incluem momentos importantes da vida de muitas pessoas, amores ali descobertos, amizades por ali iniciadas, rancores de circunstância que desmascaram a natureza de muita gente que se pinta demais. Coisas que fazem parte da comunidade que somos, daquilo que fazemos aqui por opção quando podíamos fazer outra coisa qualquer noutro lugar ou plataforma de comunicação.

 

É incrível para mim o desplante com que se pode apagar dessa forma tanta informação, tanta memória deste suporte que só uma democracia a sério consegue tolerar na sua forma pura, livre de cortes ou de sanções por razões ideológicas.

É ainda mais inacreditável quando os próprios "donos" dos blogues apagam por iniciativa própria as palavras, boas ou más, que testemunharam a sua presença e deram conta da sua existência virtual.

Apagar as caixas de comentários é como passar uma esponja sobre tudo, sobre todo o tempo investido por quem as preencheu com qualquer tipo de emoção ou de intenção.

É como trair a essência deste risco que corremos sempre que optamos por publicar com portas abertas à intervenção de estranhos, de anónimos. Ou de gente amiga e bem identificada que não vejo como não se sentir defraudada quando vê desaparecerem assim os traços da sua participação directa na construção de um trabalho desta natureza.

 

E isso aborrece-me, pelo valor que atribuo a tudo quanto os meus blogues acolhem de humano, as reacções, os afectos, as embirrações e todas as marcas da passagem de alguém por estes espaços que só fazem sentido se os respeitarmos na sua forma original.

 

Se não querem guardar os comentários no futuro, para que abrem sequer as caixas?

publicado por shark às 21:24 | linque da posta