HÁ UM SILVO INTENSO NO PIPO DESTA PANELA

Existem problemas na vida que nos aterram no colo mesmo quando tudo fazemos para os evitar. Coisas que começam de forma aparentemente inócua, simples de resolver, e que de repente assumem proporções descontroladas tanto no grau de ameaça que representam como no impulso primário que nos leva a reagir sem estribeiras e nos esgota no sentido de o conter.

 

De há uns tempos a esta parte tornei-me quase um eremita, tentando fugir dos outros para assim poder encontrar um pouco da paz que me faltou. O método resulta e de facto evita algumas confusões e sarilhos tradicionais. Mas não é infalível nem oferece garantias de durabilidade.
E a vida (ou o destino, ou deus ou o que preferirem) encontra sempre forma de nos confrontar com dilemas terríveis, situações complicadas, problemas que soam irresolúveis e que nos desafiam a estrutura e nos obrigam a repensar alguns pressupostos que gostamos de ter como dados adquiridos.

 

Se um problema pode constituir factor de perturbação quando nos afecta directamente, o seu impacto é exponencial quando estão em causa os filhos e é sobre eles que recai qualquer tipo de aflição ou de repercussão foleira potencial. Basta uma doença mais assustadora para nos arrependermos de não termos seguido Medicina em vez de outra coisa qualquer...
Contudo, se a uma doença podemos reagir com a determinação de quem tudo faz para a combater pelos melhores meios ao alcance a outro tipo de maleitas, sociais ou assim, já não conseguimos aplicar a mesma resignação que nos vale para suportar o galo de um qualquer bicho microscópico ter batido à porta da nossa cria.
Abrimos de imediato, por instinto, as garras e arreganhamos a dentuça para defender ao ataque e assumimos a dinâmica panzer. Ou kamikaze, se necessário.

 

E estes termos bélicos indiciam essa verdade insofismável para mim: é de uma guerra que se trata quando estão em causa os interesses ou a segurança da minha filha e essa ameaça deriva de terceiros perante os quais ela esteja em manifesta desigualdade de circunstâncias.
Não sou, de todo, um arruaceiro. Mas jamais me permitirei o pecado da negligência, do optimismo, da fé que aplicada aos outros vale sempre aquilo que eles tiverem para dar.
Nós pais agimos quase sempre como animais feridos quando os filhos sofrem ou arriscam sofrer qualquer dano provocado pelos outros, os tais de quem tenho tentado afastar-me. Qualquer actuação alternativa consome-nos e deriva apenas do bom senso que mobilizamos a custo para não deitarmos tudo a perder na sequela de uma intervenção desastrada.

 

Pousamos o lança-chamas e deitamos a mão ao extintor, tentando numa primeira fase apontar para o interior de nós mesmos e não deitar para a fogueira as achas do incêndio que nos consome por dentro e nos vemos na contingência de combater em paralelo com o pânico e a ira que alguns cenários plausíveis nos ateiam.

 

E isso esgota uma pessoa, acreditem.

publicado por shark às 12:03 | linque da posta | sou todo ouvidos