(OL)FACTOS E SONS

Nem sempre estamos virados, escribas e leitores, para os temas profundos. Faz parte das nossas precisões a de desanuviar de vez em quando e para isso também um blogue pode servir.

 

Ainda assim, existem grandes questões da humanidade (pelo menos de alguma) que podem ser abordadas neste contexto de bebedeira de liberdade de expressão que a blogosfera representa onde a deixam.

E quem fala em bebedeira associa com facilidade a ideia da comezaina e daí ao tema principal desta posta vai um som. O som que as pessoas produzem quando, por alguma corrente de ar na parte da canalização a que julgo chamar-se esófago, abrem a boca e arrotam.

 

Arrotar, nesta nossa civilização ocidental com tantas regras e preceitos estapafúrdios, é algo que soa ordinário, malcriado, boçal.

Não vou aqui fazer a apologia do arroto livre e sem restrições, mas não me inibirei de chamar a vossa atenção para um claro indicador da base de sustentação hipócrita de toda esta repulsa que o acto de arrotar suscita à maioria de nós.

Em causa está o absurdo de uma pessoa arrotar sem querer (vamos partir desse pressuposto para facilitar a vossa digestão do raciocínio) e cada testemunha presente ser mimoseada com um inadequado "com licença".

Com licença?

 

Tanto quanto me ensinaram, as pessoas devem pedir licença antes de efectuarem determinado gesto e não depois de dispararem uma qualquer sonora bujarda das que são rejeitadas neste nosso mundo tão polido. Ou seja, temos aqui um paradoxo daqueles que podem provocar azia nos sistemas digestivos mais ácidos pois a boa educação insiste no tal pedido prévio de licença antes (e perdoem-me a redundância anterior - ou deveria pedir-vos licença?) e neste caso concreto recomenda que o mesmo seja levado a cabo depois.

E é aqui que sustento a hipocrisia da coisa, que aflorei mais acima, por ser mais do que evidente que é quase gozar com os outros pedir licença para algo que já ninguém pode impedir que aconteça. A pessoa cumpre em simultâneo os preceitos estipulados, manifestando uma espécie de arrependimento palerma por uma reacção natural e espontânea em determinadas condições, e por outro lado insulta os presentes com o descaramento de um pedido parecido com aqueles de licenciamento para o início de uma obra à qual, por mero acaso e assim, já só falta pintar a fachada...

 

É de fachada que se trata, claro, pois não faz sentido termos que nos responsabilizar por incidentes involuntários e que ainda por cima fazem parte dos mecanismos naturais de qualquer organismo.

Quero com isto dizer que não sendo possível o tal pedido por antecipação, no tempo devido para permitir aos outros uma palavra a dizer acerca do assunto, também não faz sentido que tenhamos que apresentar o subsequente pedido de desculpas que o "com licença" neste contexto claramente representa.

 

Mas isso leva-me a extrapolar para outros fenómenos análogos do ponto de vista da sonoridade humana e não tenho a certeza de que queiramos, escriba e leitores, abordá-los nesta ou em futuras postas...

 

 

publicado por shark às 12:54 | linque da posta