A POSTA INÓCUA (Mais uma)

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Foto: sharkinho

O melhor pretexto de qualquer progenitor para justificar um comportamento irregular ou embaraçoso por parte de um filho são as “más companhias”.
Estes oportunos bodes expiatórios permitem encontrar uma explicação “de fora” para a questão interna, satisfazendo em simultâneo o impulso de preservação da imagem dos “nossos” e a nossa paz de espírito perante a eventual quota de responsabilidade que nos possa competir, na educação ou na hereditariedade.

A culpa dos outros, no acto em si ou no simples desencaminhar da pessoa certinha que, de repente, se assumiu destrambelhada. Um dos mais gastos caminhos de fuga para uma realidade que não conseguimos aceitar. E sempre actual.

Mas esta mania de atribuir a terceiros as razões ocultas para as nossas culpas não se fica pelo natural, embora condenável, instinto de mãe ou de pai. As meninas e os meninos aliviados da carga pejorativa dos seus pecados, atirada para cima de outra pessoa, aprendem a lição. Depois de crescidos, continuamos a sentir a tentação de escapar pela porta mais à mão.
Falo por mim também, claro, que não raro dou comigo a interiorizar essa facilidade ao dispor. Porto-me de forma contrária aos meus princípios e aos meus valores mas a culpa é de fulana ou de sicrano que me desviam do caminho e me obrigam a agir de forma errada. A forma errada é enveredar por um pretexto que nos transforma, pela lógica implícita, em imbecis sem vontade própria.

Os outros não servem, nunca servirão de atenuante para as nossas más escolhas. São apenas figurantes no teatro de marionetas onde nos compete manipular os fios. Donos do nosso destino, senhores da nossa capacidade de decisão. Tudo o resto não passam de baldes de areia onde enfiamos a mona como avestruzes quando a coisa se descompõe.
Claro que todos padecemos de alguma vulnerabilidade às influências que nos chegam do exterior, mais vulneráveis quanto mais ligados a essas pessoas que nos influenciam.
Contudo, a última palavra, a última atitude fica sempre a cargo de cada um de nós, da nossa consciência que distingue certo e errado, bom e mau, melhor ou pior.

Se agimos contra a nossa natureza, levados pela corrente por outros criada, não adianta descartar a responsabilidade para cúmplices de circunstância. Bastaria dizer não. E rumar na direcção oposta, se era a que nos parecia a mais acertada, arcando com quaisquer consequências, as nossas consequências, pelo desacerto de qualquer opção infeliz.

Não há santas imaculadas nem pecadores sem remissão. Somos criaturas em busca de um rumo decente para uma existência em condições, desorientadas pela ignorância que se revela em cada descoberta que se produz. Somos uns parvos que, na esmagadora maioria, desaproveitamos a vida na ingrata missão de infernizar as vidas alheias como diabolizam a nossa. Purgamos o mal em exorcismos de merda, quantas vezes à custa de outras pessoas, as tais que nos servem de justificação para as atitudes indignas e os pensamentos impuros. E renegamos o bem a cada esquina de uma vida cheia de ameaças e de ambições, de falsas promessas e de tentações demoníacas que são as inerentes à nossa frágil condição de aberrações num mundo harmonioso que estamos a arrasar.

Não há desculpa, excepto o arrependimento que se prova nas acções. Ou mesmo nas palavras, quando sinceras, daquelas que nos assumem as culpas no cartório e que constituem o motor natural para um procedimento melhor, logo a seguir.
Porque o somatório dessas intervenções, mais algo de brilhante que poucos de nós somos capazes de produzir ao longo da passagem, é o que fica da nossa presença fugaz e, regra geral, obliterada no prazo de uma geração ou duas.

Claro que isto é uma conversa inócua, considerando o lugar que todos os que nos preocupamos com estas coisas ocuparemos dentro de algumas décadas (no melhor dos cenários).

Mas um gajo tem que entreter-se com alguma coisa enquanto o tempo não esgota, não é?
publicado por shark às 16:31 | linque da posta | sou todo ouvidos