A POSTA QUE A JUSTIÇA NÃO É CEGA MAS APENAS UM NADINHA CURTA DE VISTA

Um fulano com 39 anos de idade disparou à queima-roupa sobre o peito de um sexagenário, tendo este morte imediata. Até ver ficou em liberdade, obrigado ao transtorno de se apresentar duas vezes na esquadra da polícia.
Dez indivíduos foram apanhados com menos de vinte quilos de haxixe. Estão há dez dias sem poderem tomar banho, detidos em condições pouco menos do que abjectas na Bela Vista (Porto).

 

Podem vir os juristas que quiserem tentar explicar esta diferença de critérios aplicada a um assassino (alegado e mais não sei o quê) e a traficantes de drogas leves (que, ao que se sabe, não matam seja quem for).
Não sou um cidadão mais esperto do que os outros, mas na minha modesta opinião prefiro ter à solta gajos que ganham a vida a ganharem dinheiro à custa da teimosia do Estado em manter ilegal algo que poderia render impostos e fugir de imediato ao controlo das redes de tráfico do que animais capazes de dispararem uma arma de fogo sobre alguém.

 

Enoja, esta evidente caça ao homem por parte das autoridades e do sistema judicial relativamente ao crime hediondo do tráfico de cannabis porque deixa bem clara a intenção de mostrarem serviço à conta de pequenos criminosos, enquanto os traficantes das drogas que destroem vidas e andam de jacto particular não são incomodados na mesma proporção, acabando depois por revelarem em casos como o do assassino (alegado, já sei) de Ribeira da Pena a exagerada brandura de costumes que tantas vezes dá raia quando os bandalhos à solta aproveitam o ensejo para repetirem as suas façanhas.

 

Eu entendo que juízes e polícias num país como este sintam o receio normal de quem se vê obrigado a enfrentar redes de tráfico que envolvem gente poderosa que pode, por exemplo, ameaçar-lhes as famílias e não consta que exista na nossa magistratura alguém do calibre de um Baltazar Garzón (embora seja óbvio que se multiplicam os mãos largas capazes de imporem medidas de coacção que soam quase como recompensas para os prevaricadores).
Não tenho, todavia, a mesma complacência para com os pesos e as medidas com os quais tentam impressionar o pagode sempre que deitam a mão aos perigosos facínoras que trazem haxixe a bordo de traineiras para ganharem uma ninharia por comparação com os que traficam drogas duras e movimentam milhões.

 

E temo que estes indicadores exprimam uma fragilidade da Justiça que nos poderá sair muito cara no futuro, pois o tempo não atenua o problema e antes o agrava por permitir o alastramento dos tentáculos de redes cada vez mais sofisticadas e poderosas que aos poucos se apropriam de pessoas pelo medo ou pela ganância tal como instalam, ao deixarem assassinos (presumíveis inocentes, pois é) à solta, um clima crescente de impunidade que é um convite descarado à justiça pelas próprias mãos por parte das vítimas (e seus familiares) desta corja que nos ameaça.
 

publicado por shark às 10:20 | linque da posta | sou todo ouvidos