POR LINHAS TORTAS

Como um lago tranquilo onde surge, imprevisível, uma imensa ondulação. No calor de uma intensa discussão, inesperada, nunca fica salvaguardada a sensatez e coloca-se em causa tudo aquilo que se fez até então.
No interior do coração agitado pela tormenta, fruto de tudo o que se enfrenta fora do contexto, existe um mecanismo muito lesto a separar as águas que o amor uniu. Parece até que a paixão sumiu num banco de nevoeiro que se instalou a tempo inteiro diante do olhar perturbado pelo mal-estar suscitado e torna-se fácil perder de vista o objectivo que motivou a conquista que tanta felicidade acarretou.
E afinal foi o medo que ocultou esse segredo transmitido por sucessivas gerações que viveram as suas paixões, o receio de perder quem se ama por não se ser muito bom na cama ou qualquer outra razão imbecil, o ciúme ou outra emoção vil das que só servem para corroer sem nexo a relação de confiança que deveria fazer parte de um altar.

 

A segurança de navegar num leito seguro e isento de malícia ou despeito perdida numa carícia que ficou por concretizar. Um desperdício, esse hábito, esse vício que todos temos de confundir aquilo que sabemos sentir mas ficamos baralhados pelas acções inexplicáveis e pelas sensações desagradáveis que em tempos passados alguém nos provocou.
Sinais de alerta que a mente criou com o poder da imaginação a partir de uma má interpretação de algo que aconteceu ou ficou por realizar.
As coisas que ficam por contar pelo temor de poderem beliscar o amor ou mesmo destruí-lo e que agitam o lago tranquilo com tempestades num copo como se provam no rescaldo, dúvidas por esclarecer e o coração a bater acelerado pelo motivo mal explicado no meio da confusão, no seio da ondulação artificial nascida a partir de reacções descontroladas.

 

As vidas assim desperdiçadas na ansiedade de uma flutuação a bordo de tábuas de salvação desnecessárias, destroços marginais às histórias de amor originais que se afogam aos poucos num mar de interrogações.

As respostas e as soluções adiadas até se darem quase por perdidas as hipóteses de reconciliação, o equívoco de uma desilusão sem eira nem beira que pode comprometer uma vida inteira ao longo da qual o arrependimento poderia chegar pelo esclarecimento que não se pode obter quando sopra nas almas o vento da desconfiança, quando se vê arrastada a esperança para o fundo e parece que o fim do mundo chegou.

 

Contudo, é essa aflição que fica, esse aperto no coração que nos indica que o amor não desertou.
 

publicado por shark às 17:38 | linque da posta | sou todo ouvidos