O CONVIDADO SURPRESA

Entrou no átrio interior com o olhar metralhador a disparar sobre tudo quanto mexia. Expressão dura de quem sabia o que havia a saber e com vontade de dizer a verdade à queima-roupa, a língua no gatilho e as palavras na boca, munições, a realidade que alguns cabrões precisavam escondida prestes a ver-se despida pelo homem armado de conhecimento proibido que jamais aceitaria esquecido com o passar do tempo e aquele era o momento ideal para corrigir o que achava mal, a mentira hipócrita desvendada numa carta escrita pela mão de um moribundo emocional.

 

Instalou-se o silêncio sepulcral como previa perante a arma que exibia no olhar pistoleiro, apontada ao mundo inteiro naquele espaço representado por actrizes e actores dependentes dos favores entre si, corrupção, e dissimulou a emoção que sentia por debaixo da capa que vestia no rosto empedernido por quanto havia sabido, demais, o nojo que o sufocava cuspido nas alegações finais que arrastavam uma a uma aquelas pessoas, farsantes, para pontos muito distantes da imagem construída, a miragem destruída num instante pelo homem que de repente se transformou numa arma letal para o estatuto social daquela gente petrificada pelo calibre das revelações.

 

Quase pararam alguns corações, os de quem tombava no lodaçal que sujava as caras estupefactas de quem ouvia palavras malditas que o atirador lançava como granadas para o átrio interior por detrás da fachada que parecia tão bem pintada e afinal se distorcia num imenso borrão, uma amálgama de cores no chão, misturadas até nenhuma se distinguir, até toda a gente, homem ou mulher, perceber o drama da ausência de um pingo de inocência sequer naquele grupo alegadamente superior por englobar aquilo que de melhor a elite produzia mas desmascarado na totalidade pelo que dizia aquele soldado da verdade que às tantas se calou e a todos olhou com a expressão calma de quem possuía um canhão na alma e finalmente o disparou.

 

E foi assim que os deixou estilhaçados, para sempre desgraçados pela sua condição de cúmplices num esquema que os cobria de vergonha depois de desnudado naquele palco improvisado, cada falso argumento daquela verdade atroz desmentido pelas palavras do algoz de circunstância que lhes denunciara a essência mesquinha com as palavras que tinha na cartucheira e verbalizara de uma maneira que não lhes deixava qualquer porta de saída para evitarem a perda sofrida diante dos arautos modernos, jornalistas, que autopsiaram como médicos-legistas os cadáveres sociais dos atingidos pelos disparos verbais.

publicado por shark às 00:45 | linque da posta